Ameaça à vista: como a destruição da Amazônia pode desencadear futuras pandemias

No segundo semestre de 2022, uma onda de casos com sintomas como febre, dores no corpo e manchas na pele intrigou profissionais de saúde em Roraima. Apesar de tudo indicar infecções por dengue, zika ou chikungunya, descobriu-se que se tratava do vírus oropouche, um patógeno amazônico menos conhecido, mas que provoca sintomas semelhantes.

O mesmo ocorreu posteriormente em outras partes da região Norte, incluindo Acre, Amazonas e Rondônia e, mais adiante, fora de lá, como na Bahia, nos Espírito Santo e em Santa Catarina. Países das Américas e da Europa também registraram casos da doença.

O oropouche é apenas um exemplo de como a Amazônia, o local mais biodiverso do mundo, é lar de milhares de vírus, bactérias e outros agentes microscópicos que podem eventualmente causar problemas de saúde em seres humanos, aponta reportagem da BBC News Brasil.

Enquanto esses agentes, junto com animais hospedeiros, intermediários e outros elementos, vivem em equilíbrio, tudo bem. Porém, pesquisas alertam que a degradação do bioma, por meio do desmatamento, do garimpo e de outras atividades, aumenta o risco de contato, o que eventualmente pode se tornar o gatilho para futuras epidemias ou até pandemias.

“Esses patógenos circulam de uma maneira saudável dentro do ecossistema onde atuam, sem causar problemas para os seres humanos”, salientou o biólogo Joel Henrique Ellwanger, do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), à BBC. “A ameaça só passa a existir quando acontece a interferência humana nesses sistemas.”

Nos últimos cinco anos, ele tem trabalhado para entender como o spillover, um conceito científico que descreve uma espécie de “pulo” ou “salto” no qual os patógenos passam a afetar os seres humanos, pode acontecer na Amazônia. “Nem todo evento de spillover vai gerar uma epidemia. Isso vai depender do patógeno, de ele conseguir chegar até a população humana e encontrar ali as condições favoráveis para se disseminar”, explicou.

Essas condições envolvem aspectos biológicos e genéticos até questões sociais – por exemplo, como a existência de um mosquito na região que pode servir de hospedeiro e perpetuador dos ciclos de transmissão.

“Quando ocorre o desmatamento em alguma região, toda a fauna que habita aquele lugar vai se mover. Muitas vezes, o animal que servia de reservatório natural para aquele patógeno foge. E os vetores, que transmitem doenças como malária e leishmaniose, vão se alimentar de sangue disponível, como o de seres humanos”, observou o cientista Felipe Naveca, pesquisador em saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz).

No caso da floresta amazônica, isso ganha uma escala muito maior. “Imagina a diversidade de plantas que existe ali e a gente sequer conhece. Se pensarmos que cada espécie de ser vivo possui um microbioma próprio, estamos muito longe de entender todas as potenciais ameaças”, complementou Ellwanger. “Nós conhecemos apenas uma gota de um imenso oceano microbiano que interage nesse ecossistema.”

Ainda segundo o biólogo, “são tantos os vetores, patógenos, mecanismos e facilitadores de eventos de spillover que a degradação da Amazônia se torna a tempestade perfeita para a disseminação de doenças infecciosas”.

Como a degradação contribui para o spillover

A Amazônia sofre há tempos com o desmatamento, e uma das principais causas disso é a mineração. “Para realizar essa atividade, seres humanos entram na floresta, desmatam e exploram o solo em busca de ouro e outros minerais valiosos. Esse processo já coloca os seres humanos em contato com diversos vetores de doenças infecciosas, como mosquitos e carrapatos”, indicou Ellwanger.

Mas os problemas, ele afirmou, não param por aí, já que o garimpo está relacionado à contaminação do meio ambiente com mercúrio, substância tóxica que afeta o sistema imunológico humano.

“Isso também favorece a proliferação de patógenos”, apontou o pesquisador. “Podemos ainda falar da criação ou da pavimentação de rodovias, que facilitam a migração de espécies transmissoras de patógenos para regiões altamente populosas.”

Como lidar com o problema

Os especialistas ouvidos pela reportagem afirmaram que é possível evitar que a Amazônia se torne o berço de uma futura pandemia. Mas isso exige preservação ambiental e investimento em pesquisa.

“O mecanismo mais robusto que nós temos para a conservação da Amazônia é a demarcação de terras indígenas e a criação de unidades de conservação”, observou Ellwanger. “Esses territórios apresentam a melhor taxa de preservação, então trata-se de uma política muito eficiente que precisa ser mantida e, se possível, ampliada.”

Junto a isso, é necessário fazer levantamentos sobre os vírus que mais circulam, para entender como eles operam e qual o risco de “pularem” para os seres humanos.

“Uma coisa importante é ter regiões sentinela, como áreas onde há atividade humana que ficam próximas do ambiente de floresta, e reforçar o monitoramento de novas doenças ali”, sugeriu Naveca.

Outra ação citada pelos especialistas envolve o acompanhamento de espécies – como roedores, primatas, aves e morcegos – que são os reservatórios naturais de muitos vírus ou outros agentes microscópicos que podem representar um perigo aos humanos.

“Os morcegos, por exemplo, são um reservatório importantíssimo de vírus. E temos trabalhos que demonstram a falta de informações sobre as espécies desses animais que habitam a Amazônia”, enfatizou Naveca. “Há uma fauna tão grande ali que existe a possibilidade de surgimento de diversos vírus.”

Sendo assim, é preciso ter conhecimento para, depois, pensar em ferramentas de diagnóstico, além de vacinas e remédios. “Só conseguimos combater um problema quando conhecemos ele em detalhes. E é melhor ter essas informações antes que aquilo se torne algo real e concreto”, completou o pesquisador da FioCruz.

Fontes: BBC News, Um Só Planeta.

Foto: Christian Braga/Greenpeace.

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