Calor extremo: o que é, por que está se tornando mais frequente e quais são os riscos para a saúde e para as cidades

O calor extremo já é considerado um dos eventos climáticos mais perigosos do planeta. Diferentemente de furacões, enchentes ou terremotos, seus impactos costumam ser silenciosos: ele agrava doenças cardiovasculares e respiratórias, aumenta casos de desidratação, sobrecarrega hospitais, compromete o funcionamento de cidades e pode levar à morte.

Nos últimos anos, ondas de calor recordes atingiram Europa, Ásia, América do Norte e América do Sul, reforçando um consenso científico: a crise climática está tornando esses episódios mais frequentes, intensos e duradouros. Segundo estudo publicado na Nature Climate Change, o calor extremo já alcança atualmente um bilhão de pessoas a mais do que há 50 anos.

Mas afinal, o que caracteriza um calor extremo? Como ele afeta o corpo humano? E por que noites quentes podem ser tão perigosas quanto temperaturas elevadas durante o dia?

O que é calor extremo?

Calor extremo é uma condição em que temperaturas elevadas, combinadas a fatores como umidade, radiação solar e pouca circulação de vento, aumentam significativamente os riscos para a saúde humana, os ecossistemas, a infraestrutura e a economia.

Embora muitas pessoas associem o fenômeno apenas às ondas de calor, elas representam apenas uma das formas de manifestação do calor extremo.

Não existe uma temperatura universal que defina esse tipo de evento. O risco depende das condições climáticas habituais de cada região e da capacidade de adaptação das pessoas, da infraestrutura e dos ecossistemas.

Por isso, uma temperatura de 30°C pode representar uma situação excepcional no norte da Europa, enquanto é considerada comum em cidades tropicais.

O que é uma onda de calor?

Uma onda de calor ocorre quando temperaturas excepcionalmente altas persistem durante vários dias consecutivos em relação ao padrão esperado para determinada região.

Mais importante do que o pico de temperatura é o acúmulo de calor ao longo dos dias e das noites.

Durante condições normais, as temperaturas caem à noite, permitindo que o corpo humano, os edifícios e o ambiente dissipem parte do calor acumulado ao longo do dia.

Quando as noites permanecem quentes, esse processo de recuperação é interrompido, aumentando o estresse térmico e elevando o risco de adoecimento e mortes.

Por que o calor extremo está aumentando?

Especialistas apontam que vários fatores atuam simultaneamente. O principal deles é o aquecimento global provocado pelas emissões de gases de efeito estufa (associada principalmente à queima massiva de combustíveis fósseis), que elevou a temperatura média do planeta e faz com que novas ondas de calor partam de uma linha de base já mais quente.

Além disso, outros fatores podem intensificar esses episódios:

oceanos mais quentes;

solos ressecados pela falta de chuva;

sistemas de alta pressão atmosférica (“domos de calor”);

fenômenos naturais como o El Niño, que podem potencializar temperaturas em determinadas regiões.

O resultado é uma combinação que favorece eventos cada vez mais extremos.

Quem corre mais risco?
Embora qualquer pessoa possa sofrer os efeitos do calor extremo, alguns grupos são particularmente vulneráveis. Entre eles estão:

– idosos;

– bebês e crianças pequenas;

– gestantes;

– pessoas com doenças cardiovasculares, respiratórias ou renais;

– trabalhadores expostos ao sol;

– atletas;

– pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Nos idosos, o organismo perde parte da capacidade de regular a temperatura corporal e a sensação de sede diminui, aumentando o risco de desidratação. Já bebês possuem mecanismos de controle térmico ainda imaturos, tornando-os mais sensíveis ao calor.

Pesquisas também mostram associação entre temperaturas extremas durante a gravidez e maior risco de parto prematuro e baixo peso ao nascer.

Como o calor afeta o corpo?

O corpo humano mantém sua temperatura principalmente por meio da transpiração. Quando o ambiente está muito quente — especialmente se houver alta umidade — esse mecanismo perde eficiência.

A consequência pode ser uma sequência de problemas que inclui:

– desidratação;

– exaustão pelo calor;

– agravamento de doenças cardíacas;

– piora de doenças respiratórias;

– sobrecarga dos rins;

– aumento do risco de insolação.

Nos casos mais graves, o organismo deixa de controlar a própria temperatura, situação considerada uma emergência médica.

Por que noites quentes são tão perigosas?

Um dos fatores que mais preocupam os especialistas é o aumento das temperaturas noturnas. Sem o resfriamento durante a madrugada, o corpo permanece sob estresse por muitas horas consecutivas.

Esse acúmulo de calor reduz a capacidade de recuperação do organismo e está associado ao aumento da mortalidade durante ondas de calor. Além disso, edifícios, ruas e concreto liberam lentamente o calor absorvido durante o dia, intensificando o efeito nas áreas urbanas.

Os impactos vão além da saúde
O calor extremo também pressiona diversos sistemas essenciais para o funcionamento das cidades. Entre os principais impactos estão:

– aumento do consumo de energia;

– sobrecarga dos sistemas elétricos;

– interrupções no transporte;

– deformação de trilhos e pavimentos;

– maior risco de incêndios florestais;

– perdas na agricultura;

– redução da disponibilidade de água;

– impactos sobre ecossistemas terrestres e marinhos.

Quando ocorre simultaneamente a períodos de seca, o calor intenso pode ampliar ainda mais os riscos para abastecimento de água, produção de alimentos e geração de energia.

Como se proteger durante uma onda de calor?
As autoridades de saúde recomendam algumas medidas simples que podem reduzir significativamente os riscos:

– beber água regularmente;

– evitar exposição ao sol nos horários mais quentes;

– procurar ambientes frescos e ventilados;

– usar roupas leves;

– manter cortinas fechadas durante o dia e abrir janelas à noite, quando a temperatura externa estiver mais baixa;

– acompanhar alertas meteorológicos;

– observar idosos, crianças e pessoas que vivem sozinhas.

É importante procurar atendimento médico imediato caso uma pessoa apresente confusão mental, perda de consciência, convulsões ou temperatura corporal muito elevada.

Calor extremo é um desafio de adaptação climática

Embora medidas individuais ajudem a reduzir riscos, especialistas alertam que elas não são suficientes. À medida que eventos extremos se tornam mais frequentes, cresce a necessidade de cidades adaptadas ao calor, com mais áreas verdes, moradias mais bem ventiladas, sistemas de alerta precoce, hospitais preparados, proteção para trabalhadores expostos e espaços públicos de resfriamento.

Fonte: Um Só Planeta.

Foto: Daniela Souza/Folhapress.

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