Vinte anos depois da assinatura da Lei da Mata Atlântica, o bioma mais devastado do Brasil dá sinais de uma recuperação sustentada. Em 2025, o desmatamento chegou ao menor patamar anual registrado, segundo dados de duas plataformas da Fundação SOS Mata Atlântica.
O Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, criado com o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), monitora os grandes fragmentos de floresta madura no bioma. O sistema apontou queda de 40% na supressão de vegetação nativa no último ano, indo de 14,3 mil para 8.668 hectares — o menor índice desde 2011 e a primeira vez que o número ficou abaixo de 10 mil hectares.
Já os registros do SAD (Sistema de Alertas de Desmatamento) Mata Atlântica, desenvolvido em parceria com MapBiomas e Arcplan, são mais recentes, mas também mais sensíveis, possibilitando analisar matas menores e mais jovens. O projeto registrou queda de 28% no desmatamento em 2025, que passou de 53,3 mil hectares para 38,3 mil hectares. O número é o menor desde o início dos registros, em 2002.
Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (13) pela ONG, que celebra a conquista como simbólica, já que a entidade comemora 40 anos em 2026.
Luís Fernando Guedes Pinto, diretor-executivo da fundação, destaca que os resultados do ano passado refletem uma tendência de redução dos últimos anos que também vem acontecendo na Amazônia e no Cerrado.
“Essa trajetória vem junto com a mudança no comando do governo federal. É resultado de uma mudança de atitude e de medidas para combater o desmatamento de maneira efetiva no Brasil como um todo”, avalia.
Ele cita a Operação Mata Atlântica em Pé, conduzida pelo Ministério Público e órgãos ambientais nos 17 estados do bioma para combater o desmatamento ilegal, e abordagens inovadoras adotadas em nível nacional para coibir crimes contra o meio ambiente.
“Multas ambientais ajudam, mas não são uma medida superefetiva para combater o desmatamento porque grande parte delas não são pagas. Por isso, duas novidades foram importantes porque realmente impactam o dono da terra: a aplicação dos embargos remotos e o corte do crédito para quem desmatou ilegalmente”, diz Guedes Pinto.
Os embargos são feitos a partir da detecção por imagens de satélite de remoção da vegetação nativa sem autorização. Assim, o que é produzido naquela área não pode ser comercializado. Já o bloqueio do crédito é conduzido diretamente pelos bancos, que impedem aqueles que têm pendências ambientais de receberem incentivo financeiro.
“Isso tem muito mais impacto”, afirma o especialista. “O proprietário da terra é punido por não poder vender e por não poder acessar dinheiro. E aí pega no bolso. Então, a sensação de impunidade, da inconsequência do desmatamento, diminui cada vez mais.”
Guedes Pinto lembra que a redução expressiva na dimensão do desmate no bioma só ocorreu após a promulgação da Lei da Mata Atlântica, em 2006. Em meados da década de 1980 e 1990, quando o monitoramento da ONG foi iniciado, a média era de mais de 100 mil hectares destruídos no bioma a cada ano.
Abrigando cerca de 70% da população brasileira, a Mata Atlântica é o bioma que mais sofreu ao longo da história do país. Foi por ela que os colonizadores portugueses chegaram e foi sobre o bioma que as maiores cidades do Brasil se instalaram.
Hoje, restam apenas 12,4% da sua cobertura original de florestas maduras, segundo o Atlas. Se forem consideradas as matas mais jovens — em estágios iniciais de recuperação e, portanto, menos eficazes para a manutenção do clima e da biodiversidade — o índice chega a 24%, de acordo com o SAD.
É por se tratar de um ecossistema tão fragilizado que a ONG alerta: o desmatamento continua acontecendo e cada fragmento perdido faz diferença.
“Em especial, preocupa a persistência da destruição de restingas ao longo do litoral”, diz o relatório do Atlas. No ano passado, foram perdidos 457 hectares desse tipo de vegetação, patamar estável em relação a 2024. “O Ceará concentrou a maior parte das perdas, seguido por ocorrências em Santa Catarina, Rio Grande do Norte, Piauí e Bahia.”
Dados do SAD apontam que a agricultura é o principal fator de pressão sobre a Mata Atlântica, respondendo por 96% dos 38,3 mil hectares desmatados no ano passado. Em grau muito menor, o desmate também é movido pela expansão de áreas urbanas (1,5%), mineração (0,8%), a construção de barragens ou reservatórios (0,6%) e outras causas (1,1%).
Segundo o SAD, os estados que mais desmataram o bioma em 2025 foram Bahia (17,6 mil ha), Minas Gerais (10,2 mil ha), Piauí (4.389 ha) e Mato Grosso do Sul (1.962 ha).
“Quase toda a destruição registrada pelo sistema (96%) foi convertida para uso agropecuário, grande parte com indício de ilegalidade”, destacou a SOS Mata Atlântica.
Segundo o relatório do Atlas, a área perdida em 2025 levou à emissão de aproximadamente 4,14 milhões de toneladas de gases de efeito estufa na atmosfera. Esse total equivale às emissões anuais de 965 mil carros, de acordo com a calculadora da agência ambiental dos Estados Unidos.
“A palavra de ordem da Mata Atlântica é restaurar. Esse bioma tem todas as condições de ser o primeiro lugar do mundo a alcançar o desmatamento zero e a restauração em grande escala. A Mata Atlântica pode ser uma referência de combate à crise global do clima e da biodiversidade”, afirma Guedes Pinto.
Ele vê o bioma como um lugar central para a mitigação das emissões de carbono e para a adaptação à mudança climática.
“Na Mata Atlântica estão localizados mais de 80% dos alertas para desastres ambientais e eventos climáticos extremos do Brasil. Acabamos de ver [chuvas torrenciais em] Recife e João Pessoa — mas também já tivemos [eventos extremos em] Paraty, Belo Horizonte, Rio Grande do Sul, Petrópolis… é tudo Mata Atlântica”, lembra ele.
Risco concreto
Apesar da queda anual de área desmatada, Luís Fernando Guedes Pinto, diretor executivo da SOS Mata Atlântica, alerta para a necessidade de manter a vigilância sobre o bioma:
“O desmatamento continua acontecendo e, na Mata Atlântica, cada fragmento perdido faz diferença. O desafio é manter essa trajetória até zerarmos o desmatamento.”
Ele apontou que há um risco concreto ao bioma em discussão no âmbito do Legislativo. Isso porque, em 2025, o Congresso Nacional aprovou a Lei Geral do Licenciamento Ambiental e a Lei da Licença Ambiental Especial.
A SOS Mata Atlântica avalia que essas leis enfraquecem mecanismos de controle do desmatamento justamente quando eles demonstram resultados concretos:
“É uma distorção que leva o Brasil na contramão do Acordo de Paris e potencializa tragédias climáticas. Os números apontam que o desmatamento cai quando a lei é aplicada com rigor e critérios técnicos. Enfraquecer os instrumentos de proteção agora é arriscar o que levamos anos construindo”, disse Malu Ribeiro, diretora de políticas públicas da SOS Mata Atlântica.
Fonte: Folha SP.
Foto: Diego Padgurschi – 22.mai.17/Folhapress.


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