Em 25 anos, aumento no calor extremo nas cidades do Brasil chega a quase 6°C; veja as que mais aqueceram

Dados produzidos pelo Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) mostram que cerca de mil cidades do Brasil tiveram aumento de 2°C ou mais nas temperaturas máximas registradas entre 2000 e 2025. No topo da lista de municípios, as 20 localidades com maior aumento registrado chegam a altas acima de 5°C nos dias mais quentes, em relação ao observado no início do século. Olhando em relação às maiores áreas do Brasil onde as temperaturas extremas vêm subindo, é possível ver manchas de aumento de calor concentradas sobre os biomas Cerrado e Pantanal, com parte significativa da Amazônia e Caatinga. Segundo avaliação do Cemaden, a tendência consistente pode ser associada ao aquecimento global do planeta causada pela queima massiva de combustíveis fósseis, como petróleo e gás.

A região Sul, contudo, possui o maior número de municípios no top 20 de aumento de temperaturas máximas. Os dados permitem duas interpretações importantes: a de que biomas vêm sendo afetados velozmente pelo aquecimento do planeta em seus microclimas, e, por outro lado, zonas de grande população concentrada no Sul e Sudeste vêm sendo expostas ao calor em ascensão.

Ana Paula Cunha, pesquisadora em secas do Cemaden, afirma que os dados devem ser vistos como indicativos de aquecimento. O Cemaden calculou estatisticamente o aumento de temperaturas máximas e detectou 1.710 municípios com aumento considerado significativo na temperatura dos dias mais quentes – um terço do país.

No caso de Macaé (RJ), cidade no topo da lista, isso quer dizer que, sem no ano 2000 o dia mais quente na cidade fazia 30°C, hoje essa temperatura pode chegar a 35,7°C.

Apesar de ser uma série curta, você consegue ver aumentos significativos de temperatura no Pantanal e Cerrado. Essas mudanças vêm acompanhadas da redução de disponibilidade hídrica, com menos chuva e impacto de seca e calor, como tem aparecido em estudos que apontam a redução de superfície de água por exemplo. Está tudo interligado”, afirma a pesquisadora.

Cidades com maior aumento na temperatura máxima (2000-2025)

Macaé (RJ): +5,7°C

Colinas (RS): +5,3°C

Imigrante (RS): +5,1°C

Arambaré (RS): +5,1°C

Westfália (RS): +5,1°C

Teutônia (RS): +5°C

Arroio do Meio (RS): +5°C

Estrela (RS): +4,9°C

Roca Sales (RS): +4,9°C

Rio das Ostras (RJ): +4,9°C

Lajeado (RS): +4,7°C

Iporanga (SP): +4,6°C

Cerro Azul (PR): +4,6°C

Carapebus (RJ): +4,6°C

Piau (MG): +4,5°C

Goianá (MG): +4,5°C

Doutor Ulysses (PR): +4,5°C

Fazenda Vilanova (RS): +4,5°C

Paverama (RS): +4,5°C

Igaporã (BA): +4,4°C

Fonte: Cemaden

Os dados do Cemaden mostraram ainda municípios onde os dias mais quentes do ano vêm diminuindo de temperatura, caso de 158 localidades (2,8% das cidades do Brasil). A maior parte das localidades analisadas (3.686 municípios, 66% do país), consta na análise do centro de pesquisa como “sem tendência significativa”, ou seja, mesmo que a temperatura tenha subido ou baixado, o fato não tem relevância, de acordo com a avaliação científica.

Recortando os dados pelas capitais, apenas três tiveram aumentos de temperatura extrema considerados significativos pelo Cemaden. Cuiabá, no Mato Grosso hoje tem dias até 2,8°C mais quentes em comparação ao ano 2000. No caso de Fortaleza, +1,5°C, e de Brasília, o aumento foi de 1,4°C em 25 anos.

“Ainda que você tenha um período analisado curto, você está vendo que as temperaturas extremas estão maiores, e isso tem relação com as mudanças climáticas”, afirma Cunha.

Uma das regiões em destaque no mapa de calor é o Matopiba, fronteira agrícola entre os estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. A região está dentro do Cerrado.

O Cerrado perdeu 40,5 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2024, uma área maior do que o estado da Bahia, de acordo com dados do coletivo científico MapBiomas. A região do Matopiba sozinha é apontada como responsável pela perda de 40% da flora computada para todo o bioma, uma fatia de cerca de 15,7 milhões de hectares.

Nos últimos 40 anos, o Pantanal perdeu 21% de sua superfície aquática. Apenas em 2024, a redução chegou a 61% em relação à média histórica, segundo o MapBiomas. As causas mais frequentemente apontadas por especialistas no bioma são a ação humana nos planaltos que levam os rios até a planície alagada, diminuindo a vazão de água, e também o calor, que provoca secas e incêndios.

Na Amazônia, as secas desta década baixaram níveis dos rios, isolaram comunidades e proporcionaram incêndios em escala inédita no bioma, que também dá sinais dos efeitos do aquecimento da atmosfera sobre a dinâmica local da floresta.

O desmatamento também tem um papel importante, pois influencia diretamente na temperatura da superfície. Pesquisa divulgada em janeiro apontou que o solo desmatado fica até 3°C mais quente na estação seca, em relação a regiões com ao menos 80% de cobertura florestal.

Fonte: Um Só Planeta.

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil.

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