Entenda como a arqueologia pode nos ajudar a enfrentar a crise climática

Em janeiro de 1684, sob um frio de bater o queixo, John Evelyn escreveu em seu diário: “A geada continua cada vez mais severa (…) Não só as árvores se partiram como se um relâmpago caísse sobre elas, mas também homens e gado estão morrendo em diversos lugares, e os próprios mares estão fechados pelo gelo”. O que o notável escritor e jardineiro inglês registrou são alguns dos efeitos causados pela chamada Pequena Era do Gelo, que teve início no século 14.

O período de resfriamento global se estendeu até a metade do século 19, afetando, sobretudo os invernos na Europa. Esse é um dos exemplos mais conhecidos de variabilidade natural do clima ocorridos no passado. Mas não se engane: nenhuma dessas “idas e vindas” climáticas se deu em um ritmo tão acelerado como as que vivemos agora com o aquecimento global, impulsionado pelas atividades humanas.

Olhar pelo retrovisor da história, contudo, pode não ser um exercício sem utilidade. Um número crescente de pesquisadores defende que algumas das soluções adotadas por comunidades ancestrais para sobreviver aos efeitos da variabilidade do clima podem, de certa maneira, nos ajudar a construir sociedades mais resilientes às mudanças climáticas agora e no futuro.

E a arqueologia é uma das áreas da ciência com maior potencial para guiar esse caminho. “Registros arqueológicos oferecem oportunidades únicas para observar, medir e compreender como os humanos responderam a uma ampla gama de eventos climáticos no passado, formando uma base sólida para prever como as mudanças climáticas podem transformar nossas vidas no futuro e oferecer uma variedade de soluções possíveis”, afirma um artigo publicado pela revista PNAS, da Academia Nacional de Ciência dos Estados Unidos, no último dia 27 de julho.

Detetives do passado

A primeira etapa de um estudo de arqueologia que se proponha a olhar para os antigos humanos não pode ser outra senão colocar a mão na massa: escavar sítios arqueológicos e coletar os vestígios de ocupação preservados neles. Esses achados — como fósseis e artefatos — vão para um laboratório, onde são datados e investigados à exaustão.

Todos os métodos utilizados para inferir a idade de itens históricos são baseados na análise das alterações químicas e físicas que acontecem lentamente ao longo do tempo com o material de que o objeto é feito. Ao conhecer a natureza desses processos, é possível determinar há quanto tempo o item está exposto à degradação.

O mais conhecido desses indicadores naturais está na atmosfera e é absorvido pelos seres vivos durante toda a vida: o carbono 14 (C14). Um dos principais componentes de tudo que é orgânico, o isótopo radioativo do carbono pode ser medido até em animais e plantas depois de mortos, mas vai sumindo a uma taxa fixa com o tempo — por isso, só serve para materiais que tenham até 60 mil anos, aproximadamente.

Já que a quantidade de C14 mudou ao longo do tempo na superfície da Terra, ao comparar seus níveis na atmosfera e no objeto em questão, os cientistas conseguem estimar a idade de um artefato ou fóssil. É essa datação que permite, por exemplo, projetar o período em que uma população decaiu ou se desenvolveu.

Não são poucas as causas que podem estar por trás do colapso de uma civilização: guerras, pragas, degradação ambiental, turbulências políticas e, também, mudanças climáticas. Sabe-se, por exemplo, que conflitos político-econômicos internos cooperaram para a derrocada do Império Neoassírio no século 7 a.C.

Mas um desequilíbrio no clima — uma estiagem das bravas — também parece ter sido determinante para o fim dessa grande civilização, cujo núcleo ficava situado no atual norte do Iraque e em boa parte da Síria.

Já os maias teriam entrado em declínio não só por intensas secas, mas também por mudanças nas marés e nas atividades de furacões entre os anos 800 e 1000, conforme apontam evidências compartilhadas em agosto na revista científica Geophysical Research Letters.

A essa altura, você pode estar se perguntando como os cientistas conhecem o clima de tempos tão longínquos. É aí que a tal arqueologia das mudanças climáticas se torna multidisciplinar e dá as mãos para outro campo da ciência: a paleoclimatologia. O ramo utiliza uma série de “testemunhos ambientais” que guardam a história do clima na Terra — sedimentos marinhos, pólen, anéis de árvores, núcleos de gelo e até aquelas formações minerais que crescem do chão para o teto das cavernas, as estalagmites.

Essas estruturas são formadas a partir do gotejar lento e contínuo da água da chuva que se acumula até atingir o topo da cavidade. Por isso, cada uma de suas camadas carrega informações valiosas sobre o índice histórico de precipitação no local.

Além desses vestígios biológicos do clima, os pesquisadores desse campo também criam modelos de computador para simular as condições ambientais do passado e, assim, aumentar a precisão de seus achados. Até aí, nada de novo sob o sol — arqueólogos realizam escavações e paleoclimatologistas investigam o clima do passado todos os dias.

É o cruzamento dessas duas disciplinas que dá o tom à arqueologia das mudanças climáticas. “Usamos técnicas de modelagem ecológica para ver quais condições parecem ter afetado populações humanas documentadas em sítios arqueológicos e como elas reagiram.

Mas o que nós, humanos modernos, temos a ver com isso? “É importante termos exemplos concretos de como as sociedades do passado foram transformadas pela mudança climática para ajudar as pessoas a compreenderem o impacto da [atual] crise em um nível menos abstrato. Além disso, há exemplos de adaptações específicas que podem, sim, nos auxiliar no presente”, defende Ariane Burke, diretora do Laboratório de Ecomorfologia e Paleoantropologia da Universidade de Montreal e líder do artigo que defende a expansão do uso da arqueologia na pesquisa climática.

A variabilidade natural do clima também afetou os primeiros habitantes daqui do Brasil. Um estudo publicado em junho de 2019 na revista Nature Ecology and Evolution detalha de que maneira oscilações nos períodos de chuva podem ter impactado a sobrevivência em seis regiões da Amazônia. A análise se refere a uma escala temporal de 700 a 1300 anos atrás, portanto anterior à invasão dos europeus.

Liderado pelo arqueólogo Jonas Gregório de Souza, que estuda a ocupação humana pré-histórica no bioma, o trabalho foi feito a partir do cruzamento de dados arqueológicos e indicadores ambientais do clima no passado — como vestígios de pólen, carvão vegetal e as estalagmites investigadas pelo paleoclimatologista Valdir Felipe Novello, que também assina a pesquisa.

Os resultados sugerem que algumas sociedades indígenas pré-colombianas enfrentaram grande reorganização ou colapsaram durante o período, enquanto outras aparentam ter sido pouco afetadas e até cresceram no mesmo intervalo de tempo.

Ao que tudo indica, as comunidades que tinham assentamentos hierárquicos mais densos e que faziam uso intensivo e especializado da terra eram mais vulneráveis a secas transitórias. “Já aquelas que pareciam ser menos densas, não eram tão centralizadas nem dependiam de um único tipo de agricultura teriam sido capazes de se adaptar melhor às alterações climáticas de curto e longo prazo”, explica Souza, que é pesquisador na Universidade Pompeu Fabra, na Espanha.

O estudo revela ainda que, independentemente da organização social, os primeiros agricultores da floresta que adotaram a prática de enriquecer o solo com nutrientes, criando a chamada terra preta da Amazônia, também pareciam ter “um ponto a mais” de vantagem diante da instabilidade do clima.

Popularmente conhecido como terra preta de índio, acredita-se que o solo escuro foi corrigido pelos povos originários com grandes quantidades de carvão rico em matéria orgânica e outros resíduos nutritivos. Isso os teria permitido adentrar regiões da floresta onde o solo era originalmente mais pobre.

Em vez de aumentar o desmatamento para expandir a agricultura — como dita o perfil de exploração atualmente —, esses grupos trabalharam a favor da natureza: a terra preta é conhecida por sua maior fertilidade, capacidade de reter água e acumular carbono. Tais características garantiram a segurança alimentar desses povos por milênios e, hoje, têm inspirado a criação de técnicas análogas, como o biochar — um produto rico em carbono obtido a partir da decomposição térmica de matéria orgânica.

E esse não é o único exemplo de adaptações sustentáveis ao clima desenvolvidas por indígenas. Por milhares de anos, os aborígenes da savana australiana, por exemplo, praticaram técnicas de manejo do fogo conhecidas como queimadas culturais (ou queimadas frias). Feitas com o objetivo de reduzir a vegetação rasteira que pode alimentar grandes incêndios, como detritos de folhas e gravetos, a prática foi lentamente erradicada desde que a Austrália começou a ser colonizada, em 1788.

Nos últimos anos, porém, especialmente durante a temporada de incêndios florestais de 2019 e 2020 — que devastou mais de 10 milhões de hectares de áreas verdes, matou mais de 1 bilhão de animais e dezenas de pessoas —, movimentos indígenas e pesquisadores têm reivindicado a reinserção dessa técnica, considerada uma proteção eficaz contra incêndios moderados em algumas áreas de savana.

“O conhecimento desses povos é formado por saberes que codificam centenas e milhares de anos de observação da natureza, por isso são extremamente importantes nas discussões atuais sobre adaptação ao clima”, avalia a arqueóloga marinha porto-riquenha Isabel Rivera-Collazzo, professora assistente no Instituto Scripps de Oceanografia, nos Estados Unidos.

Incorporar conhecimentos ancestrais não significa deixar de reconhecer a contribuição das tecnologias modernas para esse cenário. Ao dar uns passos atrás na linha do tempo da história humana e outros à frente, o objetivo é trabalhar em busca de soluções considerando toda a gama de evidências disponíveis que possam nos ajudar a construir um futuro melhor — ou, no mínimo, menos catastrófico.

Fonte: Revista Galileu.

Foto: Wikimedia Commons.