O ciclismo ainda é majoritariamente masculino, mas a presença feminina em eventos e treinos avança, superando barreiras históricas, sociais e logísticas. No Brasil, onde a participação de mulheres já supera a média europeia, o esporte ganha fôlego para se equilibrar diante de problemas recorrentes de segurança e respeito.
“Por incrível que pareça, a gente tem muito mais participação feminina aqui do que na Europa. As provas do L’Étape, por exemplo, estão mais ou menos consolidadas entre 20% e 25% de participação feminina. É até maior nas distâncias curtas. Enquanto na Europa é muito difícil você chegar em 15%”, afirma a Ana Lidia Borba, comentarista e produtora de conteúdo de ciclismo.
E ela tem razão. Enquanto o L’Étape du Tour França teve 7% de ciclistas em 2023, por exemplo, o trajeto mais curto do L’Étape Campos do Jordão, prova amadora com maior número de inscritos no Brasil, formou um pelotão em 2025, no qual 25% eram mulheres. No percurso longo, esse percentual se aproxima dos eventos europeus, na casa dos 10%.
Mas por qual motivo esse número cresce tão devagar?
Infância em duas rodas
“Acho que a gente ainda sofre com dois gargalos”, explica Ana Lidia. “Um de entrada no mundo do ciclismo – e por isso as escolas de ciclismo para adultos têm muito mais presença feminina – e, um segundo, quando a ciclista precisa dedicar mais tempo para se afirmar no alto desempenho”.
Viviane Mazza estuda os dados da cultura do esporte no país com a Aliança Bike, atuando em pesquisas do GT Eventos Ciclísticos. Triatleta, ela também vivencia na prática a experiência de treinar ciclismo. “Fui nadadora na infância, depois comecei a correr e, recentemente, o triathlon me levou ao ciclismo”, explica.
Mesmo na natação, Viviane já notava as barreiras impostas à mulher. “Não era uma escolha tão comum. Tinha uma vaidade grande que levava as meninas a optarem pela dança, ballet, jazz, nada que comprometesse à delicadeza feminina. Bicicleta era coisa de menino”.
“Hoje, felizmente, eu acho que isso está mudando um pouco, mas ainda tem um certo protecionismo com a menina. Medo de ver cair, de ralar o joelho ou de deixar andar sozinha na rua”, complementa Ana Lidia.
O compromisso da vida adulta
Não são poucos os relatos do quanto à bicicleta se torna libertadora para mulheres. Isso, desde sempre. A enfermeira neozelandesa Louise Sutherland, no livro Eu Sigo o Vento, conta seus relatos, ainda muito jovem, pedalando pelo mundo em plenos anos 50. Uma experiência insegura na época – e que, em muitos aspectos, continua insegura hoje.
À medida que o compromisso com o esporte aumenta, as distâncias também e pedalar na ciclovia já não é o bastante. Estrada, trilha distante. O controle diminui e a segurança acende um alerta. “Quantas de nós mulheres já tivemos casos de assédio, de importunação durante um treino? Quantas vezes a gente já ouviu de algum conhecido, mas você vai sozinha? Ou, pior, às vezes você vai com mais duas, três, quatro amigas mulheres e escuta: mas vocês vão sozinhas?”, afirma Ana Lidia.
Para ela, provas como o L’Étape e o Giro aparecem como grande incentivo, pois reforçam a sensação de ambiente seguro e controlado. Principalmente, nas distâncias mais curtas. “Aí entra o papel das assessorias e dos grupos de convívio. É muito importante uma mulher estimulando e incentivando a rede ao redor. Uma troca de experiências inclusiva no mundo do ciclismo. E os homens também são essenciais nesse processo”.
Suporte e inclusão
Viviane Mazza tem o mesmo exemplo. Desde o tempo das corridas ela procura suporte nas Assessorias Esportivas. E foi com o apoio do marido que ela ganhou coragem para clipar os pedais. “Não tenho dúvida de que ele foi fundamental para tornar o processo mais agradável, rápido e seguro. Sem todas as dicas e orientações que recebi sobre equipamentos e técnicas, acho que me restariam algumas opções: desistir do ciclismo, perder muitas horas a mais para aprender sozinha ou gastar muito dinheiro em equipamentos que não seriam tão adequados para mim”.
Ela também reforça um fator muito importante na nossa cultura que é uma carga de trabalho invisível, como algumas tarefas domésticas, que muitas vezes recaem sobre as mulheres, tornando ainda mais difícil encaixar os treinos na rotina diária. “Acomodar todas as horas de treino em uma rotina de trabalho e família pode ser desafiador para qualquer um, eu me orgulho e me inspiro em diversas mulheres que conseguem equilibrar todas essas demandas e mantêm o esporte como parte importante de suas vidas”.
Exemplo do alto rendimento
Enquanto gerações de ciclistas foram moldadas na Europa assistindo ao Tour de France, as mulheres andaram de lado nesse pelotão. Porém, de alguns anos para cá, mesmo que lentamente, todo o contexto do esporte feminino vem mudando. Melhores provas, mais equipes e ciclistas cada vez mais estrelas globais.
Algumas delas, como a brasileira Tota Magalhães, hoje ciclista WorldTour com carreira consolidada na espanhola Movistar, tem sua formação conectada aos granfondos amadores. Uma trilha que deve ser seguida por outros nomes no futuro próximo. É a ponta da pirâmide sendo lapidada e inspirando mais mulheres na base.
Liberdade sobre duas rodas
“Deixe-me dizer o que penso da bicicleta. Ela tem feito mais para emancipar as mulheres do que qualquer outra coisa no mundo. Ela dá às mulheres um sentimento de liberdade e autoconfiança. Eu aprecio toda vez que vejo uma mulher pedalando… uma imagem de liberdade”, Susan B. Anthony, idealista norte-americana.
Fonte: Bicicleta News.
Foto: Divulgação.


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