O 1% mais rico da população mundial esgotou o que deveria ser o seu limite de emissões de carbono de 2026 nos primeiros dez dias do ano. É o que aponta uma análise da ONG internacional Oxfam publicada neste sábado (10).
O levantamento considera uma cota de emissões compatível para evitar que o aquecimento do planeta supere 1,5°C em relação à era pré-industrial. O Acordo de Paris, assinado em 2015, estabeleceu esse limite para evitar as piores consequências das mudanças climáticas.
Para manter o objetivo viável, os pesquisadores calculam que cada indivíduo teria o direito de emitir 2,1 toneladas anuais de CO2 (dióxido de carbono) até 2030, com base em dados do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente).
A elite mundial, porém, polui bem mais do que deveria. O 1% mais rico lança 75,1 toneladas de CO2 por pessoa na atmosfera a cada ano —assim, dez dias são suficientes para gastar toda a cota anual de carbono dessa faixa da sociedade.
Dois ativistas deitados cercados por notas falsas de dinheiro e segurando cartazes com mensagens como ‘Fossil phase out’, ‘Pay up para adaptation’ e ‘Fossil fuel phase out’. Ambos usam óculos escuros e roupas casuais.
Ativistas da ONG Make Polluters Pay protestam na COP30, em Belém (PA), e cobram ação climática de grandes poluidores – Anderson Coelho – 19.nov.25/Reuters
A desigualdade é ainda maior no 0,1% mais rico do planeta. Segundo a Oxfam, o grupo esgotou sua parcela de emissões de 2026 no dia 3 de janeiro. Se toda a população tivesse os mesmos hábitos de consumo desse estrato, o “orçamento” climático anual acabaria nas primeiras três semanas de 2026, de acordo com a ONG.
Segundo o estudo, o grupo precisaria reduzir suas emissões em 97% até 2030 para limitar o aquecimento global em 1,5°C.
A pesquisa diz que cada bilionário carrega, em média, uma carteira de investimentos em empresas que produzirão 1,9 milhão de toneladas de CO2 por ano. Também afirma que a poluição climática dos mais ricos causa danos econômicos a países de baixa e média-baixa renda que podem somar US$ 44 trilhões (R$ 236 trilhões) até 2050.
A ONG estima que as emissões do 1% mais rico geradas em apenas um ano causarão 1,3 milhão de mortes ligadas ao calor extremo até o final do século.
Nafkote Dabi, líder de Política Climática da Oxfam, afirmou que os governos devem focar nos grandes poluidores para reduzir as emissões e combater a desigualdade. “Ao reprimir a extrema imprudência com o carbono dos super-ricos, os líderes globais têm a oportunidade de recolocar o mundo no caminho das metas climáticas e desbloquear benefícios líquidos para as pessoas e o planeta.”
Dados preliminares do observatório Copernicus, da União Europeia, indicam que 2025 deve se confirmar como o segundo ou o terceiro ano mais quente já registrado. É provável que a média do aumento da temperatura de 2023 a 2025 supere 1,5°C —se isso para confirmado, será a primeira vez em que o limite mais seguro do aquecimento global é rompido em observações de três anos.
Estilo de vida e investimentos que aceleram o colapso
Além das emissões diretas de seu estilo de vida, os super-ricos financiam indústrias poluentes. A pesquisa da Oxfam mostra que cada bilionário possui, em média, uma carteira de investimentos que resulta na emissão de 1,9 milhão de toneladas de CO2 por ano.
Seu poder e influência também distorcem políticas públicas. Na última COP no Brasil, por exemplo, o número de lobistas de combustíveis fósseis (1600) superou o de qualquer delegação nacional, exceto a do país anfitrião.
“A imensa riqueza e poder dos indivíduos e corporações super-ricos também lhes permitiu exercer uma influência injusta sobre a formulação de políticas e diluir as negociações climáticas”, afirma Nafkote Dabi, Líder de Política Climática da Oxfam.
Soluções propostas: Taxar os poluidores ricos
A Oxfam pede ações urgentes dos governos para reduzir as emissões dos mais ricos e fazê-los pagar pela transição:
– Aumentar os impostos sobre a renda e a riqueza dos super-ricos e apoiar uma arquitetura tributária global mais justa.
– Criar um Imposto sobre lucros excessivos das corporações de combustíveis fósseis. Um “Imposto sobre Lucros dos Poluidores Ricos” aplicado a 585 grandes empresas poderia arrecadar US$ 400 bilhões já no primeiro ano.
– Proibir ou taxar itens de luxo de alto carbono, como superiates e jatos particulares. A pegada de carbono de uma semana de uso desses bens por um super-rico europeu equivale à pegada de carbono ao longo da vida de uma pessoa entre o 1% mais pobre do mundo.
– Construir um novo sistema econômico que priorize as pessoas e o planeta, abandonando o modelo neoliberal e adotando a sustentabilidade e a igualdade como pilartes.
Fontes: Folha SP, OXFAM, Um Só Planeta, ((O))eco.
Foto: Anderson Coelho – 19.nov.25/Reuters.


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