Visitação recorde em parques nacionais injeta R$ 20 bilhões no PIB

No ano passado o turismo em unidades de conservação federais monitoradas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (como parques nacionais, áreas de proteção ambiental, entre outros) recebeu 28,6 milhões de turistas e movimentou R$ 40,7 bilhões na economia brasileira em 2025. É um número recorde, 11,5% maior do que no ano anterior – ou 8,56% maior se consideradas apenas as UCs que já eram monitoradas em levantamentos anteriores.

Os dados são de um estudo do Programa Natureza com as Pessoas, do ICMBio em parceria com o Ministério do Turismo, que avalia o impacto desse movimento na economia brasileira, conduzido pelo presidente do Grupo de Turismo de Natureza da ONU, Thiago Beraldo. Eles foram divulgados na quinta (7), no Salão Nacional do Turismo, em Fortaleza.

Segundo o estudo, para cada R$ 1 aplicado no ICMBio, são gerados R$ 16 em valor agregado ao PIB e R$ 2,30 em arrecadação tributária. No total, a atividade turística nas unidades federais gerou quase R$ 3 bilhões em impostos, montante superior ao dobro do orçamento total do órgão gestor, considerando tributos sobre consumo e remuneração. Para o presidente do ICMBio, Mauro Pires, os resultados indicam que áreas protegidas devem ser tratadas como parte da estratégia de desenvolvimento econômico. “Cada real aplicado retorna de forma concreta para o desenvolvimento do país, fortalecendo o turismo sustentável e valorizando os territórios”, afirmou.

Esse movimento gerou R$ 40,7 bilhões em vendas no período (também um recorde), agregando R$ 20,3 bilhões ao PIB brasileiro. O número equivale a 0,16% de tudo o que foi produzido no país, um percentual maior do que nos EUA, onde em 2024 a visitação às UCs agregou US$ 33,7 bilhões ao PIB americano, ou 0,115% do PIB total do país naquele ano, segundo dados do National Park Service.

Toda a cadeia turística associada às 175 unidades federais de conservação no Brasil sustentou cerca de 332 mil empregos, concentrados principalmente em municípios pequenos, que funcionam como bases de visitação para esses locais.

“O estudo considera todo o impacto que as unidades de conservação têm na economia, incluindo hotéis, restaurantes, serviços de transporte e até as lojas de souvenirs que fazem parte dessa cadeia econômica”, afirma Beraldo. “Isso, é claro, é muito mais do que simplesmente contabilizar o que o órgão gestor arrecada com ingressos, por exemplo, que normalmente é a análise puramente financeira que se faz.”

O ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, afirmou que os dados demonstram o potencial econômico das áreas protegidas. Segundo ele, desde 2023, o governo federal criou e ampliou 20 unidades de conservação, totalizando mais de 1,7 milhão de hectares.

“As Unidades de Conservação não são fundamentais apenas para a regulação dos ciclos hidrológicos e do clima, proteção da biodiversidade e do controle do desmatamento, mas contribuem expressivamente para o desenvolvimento da nossa economia em bases sustentáveis. O cuidado com essas áreas protegidas, portanto, é essencial”, disse Capobianco.

Pela segunda vez, o estudo também analisou o perfil de gastos dos viajantes que visitam as unidades de conservação. Os visitantes que vivem até 100 km das unidades gastam R$ 237 por visita, em geral com alimentação. Já os brasileiros que vêm de outras regiões gastam até 4,1 vezes mais, principalmente com hospedagem e transporte, chegando a R$ 765 por visita. É menos que os visitantes estrangeiros, que deixam R$ 615 por visita, gastos com agências e guias turísticos.

Beraldo destaca ainda que cada R$ 1 do orçamento do ICMBio (que em 2025 foi de R$ 1,3 bi) gera R$ 2,30 em arrecadação tributária (que ficou em R$ 2,99 bi no período). “Ou seja, o turismo nas unidades de conservação federais devolve em arrecadação tributária mais que o dobro do investimento público realizado”, diz o pesquisador.

O estudo também avaliou que os modelos de gestão fazem diferença no desempenho econômico das unidades de conservação. As 125 que funcionam sob gestão direta do ICMBio mantêm 8,1 postos de trabalho a cada mil visitas, enquanto aquelas operadas pela iniciativa privada (que são apenas oito, mas concentram 28,9% da visitação), são 18,8 empregos por mil visitas.

“Isso acontece porque um parque concedido geralmente oferece mais serviços aos visitantes. Tem passeios guiados, lanchonetes e restaurantes, loja de lembrancinhas…”, afirma Beraldo. “Tudo isso demanda mais gente trabalhando do que um parque em que visitante tem que levar o próprio lanche, por exemplo.”

Para Iara Ferreira, diretora de criação e manejo do ICMBio, o desempenho recorde do turismo nas unidades federais de conservação mostra o potencial transformador da atividade, e que ainda há espaço para ampliá-la para tantas outras unidades que não têm visitação estruturada – são 347 em todo o Brasil.

Os parques nacionais concentraram a maior parte desse fluxo turistíco, com 13,6 milhões de visitantes, puxados pelo Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, com 4,9 milhões de visitas, seguido pelo Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, e Jericoacoara, no Ceará. O ICMBio atribui o crescimento a melhorias no monitoramento, investimentos em infraestrutura e expansão de políticas de incentivo à visitação, como o programa Natureza com as Pessoas.

“Todas elas, até mesmo as mais restritivas, como as reservas biológicas, são passíveis de visitação, nem que seja educativa, para que a sociedade entenda a importância dessas áreas”, diz Ferreira. “Agora que começamos a arranhar o PIB, fica mais claro que a conservação da biodiversidade é capaz de gerar riqueza.”

Embora o levantamento destaque os ganhos econômicos, a expansão do turismo em áreas protegidas também reacende discussões sobre capacidade de suporte, pressão sobre ecossistemas sensíveis e o equilíbrio entre conservação e exploração econômica. Entre as categorias analisadas, parques nacionais lideram em impacto financeiro, com R$ 21,6 bilhões em vendas e 219,6 mil empregos. Já as reservas extrativistas aparecem com outro perfil: menor fluxo turístico, mas maior arrecadação tributária por visitante, com média de R$ 116,60 por visita, associada ao turismo de base comunitária e aos impactos diretos nas economias locais.

Além do turismo convencional, o ICMBio destaca que as unidades de conservação recebem visitantes interessados em educação ambiental, pesquisa científica, observação de aves e vida silvestre, escaladas, trilhas e experiências junto a comunidades tradicionais.

O órgão também alerta que o crescimento da visitação amplia desafios de gestão, como equilibrar o uso público com a conservação ambiental, ampliar infraestrutura, fortalecer ações de educação ambiental e aprimorar o monitoramento dos impactos sobre os ecossistemas.

Fontes: Folha SP, Agência Brasil, (O))eco

Foto: Urbia Cataratas/ ICMBio.

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