O acidente radiológico de Goiânia há quase 40 anos deu origem a uma das séries mais vistas da Netflix em março. Emergência Radioativa já alcançou milhões de espectadores em dezenas de países, ao dramatizar a corrida de físicos e médicos para salvar vidas e parar a contaminação de césio-137 na cidade. O isótopo radioativo também foi um dos causadores do desastre de Chernobyl, ocorrido um ano antes na Ucrânia.
Atualmente, o elemento não é mais utilizado em equipamentos de radioterapia como o que causou o desastre de 1987 e o controle governamental sobre essas fontes avançou no Brasil. Mas, segundo especialistas, ainda há outros usos nas áreas industrial e médica, e falta conscientização maior do público geral sobre o tema.
A Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), autarquia federal responsável por licenciar e fiscalizar instalações nucleares e radiológicas no País, afirma que a probabilidade de ocorrência hoje de um evento com as características e a magnitude do acidente de Goiânia é “extremamente baixa”.
Em Goiânia, o disparador da tragédia foi um aparelho radioterápico abandonado nas antigas instalações do Instituto Goiano de Radioterapia. A fonte foi vendida para um ferro-velho por conter chumbo, e fragmentos do material radioativo foram distribuídos a parentes e amigos pelo dono do depósito.
“Não houve comunicação formal à CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear) da necessidade de remoção pelos responsáveis pela clínica, que detinham a posse do equipamento”, explicou ao Estadão Paulo Roberto Rocha Ferreira, que integrou o grupo de emergência da CNEN à época do acidente e agora chefia a Coordenação-Geral de Segurança Nuclear e Radioproteção da Comissão.
Em depoimento publicado em março nas redes sociais da CNEN, órgão ligado ao Ministério da Ciência, Ferreira relembrou os dias de trabalho exaustivo na triagem, atendimento e descontaminação das vítimas, a estigmatização dos radioacidentados e a dificuldade de retirá-los, muitas vezes definitivamente, de suas casas sem poder levar nada.
“O evento do césio em Goiânia foi um divisor de águas em relação à atuação da CNEN na fiscalização e controle da posse e do uso de fontes (radiológicos), principalmente na área médica”, diz o supervisor da área de Física Médica do Centro de Engenharia Biomédica (CEB) da Unicamp, Márcio Tokarski. “Realmente era uma coisa muito largada na época.”
O acidente contaminou uma área de 3.000 m², pelo menos 271 pessoas e oito locais, segundo dados da ANSN. Para a autoridade reguladora, criada em 2021, o evento foi resultado de ausência de controles hoje considerados básicos. “Esse cenário foi superado por um arcabouço regulatório muito mais robusto, alinhado às normas internacionais”, afirma a autoridade reguladora, em nota.
Quatro mortes diretas foram causadas pela contaminação, além de problemas de saúde como câncer, hipertensão, transtornos mentais e doenças de pele para outras centenas de pessoas expostas. Um grupo de 112.800 indivíduos precisou ser monitorado. A associação das vítimas reivindica ainda o reconhecimento de vítimas indiretas e maior assistência aos afetados pelo acidente.
No fim de março, após a repercussão da série, a Assembleia Legislativa de Goiás aprovou o reajuste das pensões vitalícias pagas às vítimas do acidente — o valor não era corrigido havia sete anos. A proposta aguarda sanção do governador.
Césio-137 ainda é utilizado como fonte radiológica?
O césio-137 em pó deixou de ser usado por ser facilmente dispersável. Segundo o chefe da Coordenação-Geral de Segurança Nuclear e Radioproteção da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Paulo Roberto Rocha Ferreira, as fontes são projetadas de forma mais segura e houve avanços tecnológicos importantes, como os aceleradores lineares na radioterapia, que só emitem radiação quando ligados.
Esses equipamentos mais sofisticados, porém, nem sempre estão disponíveis em larga escala. Segundo Tokarski, supervisor da área de física médica do CEB da Unicamp, embora menos utilizado na área médica, o césio ainda é empregado em alguns equipamentos como irradiadores de sangue, e em procedimentos das indústrias como a gamagrafia, que utiliza a radiação para inspecionar a estrutura interna de materiais densos, a partir de imagens radiográficas.
Desde os acidentes do século passado, programas internacionais de segurança nuclear, ligados à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) da ONU, buscam substituir equipamentos com fontes de césio-137 por tecnologias mais seguras.
Em 2023, duas cápsulas radioativas de césio-137 desapareceram em Minas Gerais, após serem supostamente furtadas de uma mineradora. As fontes foram localizadas dias depois em uma empresa de sucatas de São Paulo, a mais de 400 km.
O material radioativo estava armazenado em cápsulas de aço inoxidável blindadas, usadas em equipamentos medidores de densidade. Nessa condição de armazenamento, essas fontes não são consideradas perigosas, mas podem causar danos à saúde se forem manuseadas de forma inadequada.
O episódio indica que ainda pode haver fragilidades no uso e transporte dessas fontes, principalmente as mais portáteis, utilizadas fora do ambiente hospitalar.
Ao Estadão a CNEN refuta a possibilidade de um novo acidente como o de 1987, por haver maior controle por parte das autoridades e maior conscientização de empresas e profissionais da medicina e da indústria que utilizam fontes radioativas.
Para Tokarski, a conscientização melhorou entre aqueles envolvidos na posse, uso e manuseio das fontes, sobretudo na área médica. Mas, para ele, ainda é falha na população em geral, que frequentemente desconhece o perigo quando se depara com esses equipamentos ou não sabe identificar a sinalização de segurança.
“Existe a possibilidade de acontecerem incidentes no uso dessas fontes, mas é improvável que um acidente como o de Goiânia volte a acontecer. Hoje há segurança maior, não aconteceria mais de uma fonte ficar abandonada em um prédio semidemolido, sem nenhum cuidado”, diz o físico médico.
Fonte: Estadão.
Foto: Divulgação/Governo do Estado de Goiás.


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