A observação de pássaros pode remodelar o cérebro e fortalecer sua resistência ao envelhecimento

Tornar-se observador de aves exige um nível de perceção, atenção e memória que reorganiza áreas específicas do cérebro. Um novo estudo conclui que o birdwatching ajuda a travar o declínio cognitivo ao envelhecermos.

A investigação mostra que, à medida que as pessoas aprendem e adquirem uma nova competência, a estrutura e a atividade do cérebro sofrem alterações.

Mas de que forma competências mais complexas, que envolvem múltiplos processos de aprendizagem, influenciam o cérebro?

Num novo estudo publicado a 23 de fevereiro na revista The Journal of NeuroScience, investigadores liderados por Erik Wing, do Baycrest Hospital, em Toronto (Canadá) compararam os cérebros de 29 observadores de aves especialistas com os de 29 iniciantes, com idades e sexo correspondentes.

Para isso fizeram ressonâncias magnéticas aos 58 participantes neste estudo e compararam a estrutura dos seus cérebros.

Os investigadores descobriram que os observadores de aves especialistas apresentavam áreas cerebrais associadas à atenção e à perceção estruturalmente mais compactas, o que estava ligado a uma identificação mais precisa das aves.

“A medida que utilizámos baseia-se na difusão das moléculas de água no cérebro. Uma forma de o descrever é dizer que existe menor restrição à circulação da água nos cérebros dos especialistas”, comentou, em comunicado Erik Wing. Isto significa que os especialistas em birdwatching podem usar mais do seu cérebro para acelerar o processo de memória e processar a informação.

Algumas daquelas áreas cerebrais mais compactas apoiavam também a identificação e a memória de aves menos familiares, que não eram locais da região.

Estas alterações estruturais nas áreas cerebrais ligadas à atenção e à perceção mantiveram-se nos observadores de aves mais velhos. Especulando sobre o significado destes resultados, Wing considera que “adquirir competências através da observação de aves pode ser benéfico para a cognição à medida que as pessoas envelhecem.”

Os investigadores continuam a explorar esta hipótese, analisando se os adultos mais velhos recorrem às competências desenvolvidas com a observação de aves noutras tarefas cognitivas. Descobriram que observadores de aves conseguem memorizar melhor fotografias de rostos arbitrários quando apresentadas juntamente com fotografias de aves. Assim, associar elementos arbitrários a conhecimentos já estabelecidos em domínios específicos pode melhorar a recordação de informação fora desses domínios.

Segundo Erik Wing, isto quer dizer que eles podem criar uma ligação entre novos conhecimentos e informação antiga, que já tenham, para melhorar a sua memória.

Como a observação de aves exige um olhar atento, elevada concentração e uma memória robusta, este trabalho pode ter implicações para especialistas noutras áreas que recorrem a processos semelhantes.

Treinar

A observação de aves exige uma combinação de habilidades cognitivas: reconhecer padrões sutis, identificar espécies semelhantes, prestar atenção ao ambiente e memorizar características visuais. Esse conjunto de exigências pode explicar por que a prática mobiliza diversas áreas do cérebro ao mesmo tempo.

“A observação de aves envolve múltiplos domínios cognitivos, o que pode torná-la benéfica para diferentes aspectos da cognição”, disse Wing à New Scientist, conforme a Smithsonian Magazine.

Os cientistas destacam, no entanto, que os efeitos observados não são exclusivos das aves. Demais atividades que demandam processos cognitivos semelhantes podem gerar impactos comparáveis no cérebro.

Fontes: Um Só Planeta, New Cientist, Wilder.

Foto: Steve Young/Alamy.

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