Um estudo publicado na revista The Lancet indica que o aumento das temperaturas devido ao aquecimento global pode levar milhões de adultos, em especial de países pobres, à inatividade física até 2050. A falta de exercício, por sua vez, pode provocar até 700 mil mortes, além de bilhões de dólares em impactos econômicos.
A pesquisa analisou dados de 156 países ao longo de 23 anos (2000–2022) para entender como o aumento das temperaturas afeta os níveis de atividade física da população. Os pesquisadores usaram modelos estatísticos para controlar fatores como renda, poluição e precipitação, isolando o efeito específico do calor.
Com esses resultados, combinaram projeções climáticas para estimar o que pode acontecer até 2050 em três cenários: de baixas, médias e altas emissões. A partir daí, calcularam as mortes prematuras e perdas econômicas que o aumento da inatividade poderia gerar em cada país.
Temperatura x atividade física
Segundo a pesquisa, o calor atua como uma barreira que desestimula ou impede a realização de exercícios. Ele aumenta, por exemplo, o esforço percebido, o que torna a atividade física mais exaustiva.
Temperaturas mais altas também afetam a paraça muscular, a cognição e a qualidade do sono, o que reduz a disposição para se movimentar, conforme a pesquisa.
O calor, além disso, aumenta o fluxo sanguíneo na pele e a sudorese, o que eleva o estresse cardiovascular e o risco de desidratação.
“Em termos concretos, isso implica que mais pessoas podem ter mais dificuldade para caminhar, andar de bicicleta, se exercitar ao ar livre ou mesmo manter uma rotina de exercícios durante os períodos mais quentes, especialmente em locais com pouca sombra, refrigeração limitada e grande dependência da mobilidade ao ar livre”, destaca o economista da saúde Christian García-Witulski, autor do estudo e professor da Pontificia Universidad Católica Argentina.
Uma menor adesão foi percebida em temperaturas médias superiores a 27,8 °C. Cada mês acima da média aumentou a prevalência de inatividade física em 1,44 ponto percentual globalmente. Em países de baixa e média renda, o aumento foi de 1,85. Já em países de alta renda, o efeito foi praticamente nulo.
“Essa não é apenas uma história sobre o clima, mas também sobre desigualdade”, destaca García-Witulski.
“Em muitos países de baixa e média renda, as pessoas têm menos acesso a ar-condicionado, menos opções de exercícios em ambientes fechados, menos infraestrutura pública com sombra e menos flexibilidade para transferir atividades para os horários mais frescos do dia. Portanto, o mesmo aumento na exposição ao calor tem maior probabilidade de se traduzir em redução da atividade física”, detalha.
Pelas projeções, os principais focos de inatividade, em 2050, estarão concentrados em áreas da América Central, leste da África subsaariana e sudeste da Ásia equatorial.
Vale destacar que inatividade física e sedentarismo são conceitos distintos. O primeiro se refere à prática insuficiente de atividade física, abaixo do mínimo recomendado. O segundo corresponde ao tempo em que a pessoa permanece em repouso, como o tempo que ela permanece sentada ao longo de um dia de trabalho.
Para García-Witulski, no Brasil, o problema não é uma ameaça futura, é uma realidade presente. “Em muitos lugares, as condições que identificamos como especialmente prejudiciais à atividade física já fazem parte do cotidiano durante vários meses do ano.”
De acordo com as projeções nacionais do estudo, o Brasil apresenta aumento da inatividade física de cerca de 1,1 ponto percentual no cenário de baixas emissões e de aproximadamente 1,7 ponto percentual nos cenários intermediário e de altas emissões até 2050.
“O Brasil não está entre os pontos críticos globais mais extremos, mas está claramente exposto a esse mecanismo, e o efeito é significativo do ponto de vista da saúde pública”, pontua o autor.
Inatividade física e mortalidade
O estudo prevê entre 470 mil e 700 mil mortes evitáveis até 2050. No entanto, García-Witulski esclarece que nem todas estão relacionadas diretamente ao calor.
Segundo ele, os registros estão ligados a um efeito indireto: “O aumento das temperaturas aumenta a inatividade física, e uma maior inatividade física aumenta o risco de mortalidade”.
Isso ocorre porque a inatividade física está associada a uma série de riscos à saúde. “Muitos estudos apontam com bastante clareza que a insuficiência de movimentos deteriora as condições fisiológicas e, em última análise, desemboca em uma série de doenças crônicas”, explica Bruno Gualano, professor e presidente do Centro de Medicina e Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
Entre as consequências estão obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão arterial, osteoporose e diferentes tipos de câncer. “A lista é longa”, alerta Gualano. “É por isso que a inclusão de movimento é considerada uma estratégia de promoção da saúde e de prevenção de uma série de condições crônicas”, acrescenta.
De acordo com o professor, os grupos mais afetados tendem a ser os idosos, as crianças pequenas e os pacientes com doenças crônicas.
No caso dos indivíduos com mais de 60 anos, há uma redução na quantidade e na sensibilidade dos receptores responsáveis por regular a sede, além de menor produção do hormônio antidiurético, que promove a reabsorção de água nos rins. Com isso, eles sentem menos vontade de beber água, mesmo quando o organismo precisa, o que os torna mais suscetíveis à desidratação.
Crianças também possuem uma menor capacidade de percepção da sede, mas questões comportamentais entram na conta. Gualano cita que é difícil, por exemplo, uma criança interromper voluntariamente uma brincadeira para beber água.
Já pacientes com doenças crônicas como diabetes podem ter o sinal de sede comprometido devido às condições clínicas.
Impactos econômicos
Segundo o estudo, além das mortes prematuras, os efeitos do calor — como a redução da paraça muscular, prejuízos à cognição e piora na qualidade do sono — podem levar a menor desempenho no trabalho e a mais faltas.
A pesquisa estima que a perda de produtividade causada pelo calor poderá causar perdas anuais entre US$ 2,4 e US$ 3,68 bilhões globalmente até 2050.
Estratégias
Em busca de mitigar os efeitos, García-Witulski entende que o planejamento urbano adaptado ao calor tem maior potencial e é mais acessível em países em desenvolvimento, onde nem todos têm acesso a equipamentos de refrigeração, como ar-condicionado.
“Ampliar as áreas sombreadas, aumentar a cobertura arbórea, melhorar a ventilação, refrescar os espaços públicos e tornar as rotas de caminhada e os parques mais acessíveis em climas quentes são medidas que podem beneficiar um grande número de pessoas, não apenas aquelas que podem pagar por academias particulares ou instalações cobertas”, diz.
Um plano de comunicação sobre riscos também é considerado importante e relativamente barato, de acordo com ele, mas não é suficiente se as pessoas não tiverem acesso a locais seguros para a prática de atividade física.
“Comece com a adaptação urbana e dos espaços públicos, combine isso com orientações claras sobre os riscos do calor e, em seguida, utilize medidas mais específicas, como instalações com climatização controlada para grupos especialmente vulneráveis”, ressalta o pesquisador.
Para a realização de exercícios em climas mais quentes, Gualano orienta que as pessoas evitem horários de pico de calor, como entre as 11h e as 14h.
Outro ponto é a hidratação. O professor recomenda sempre respeitar o sinal fisiológico da sede e beber água assim que sentir necessidade.
Fonte: Estadão.
Foto: Reprodução.


Seja o primeiro