Águas do Tâmisa identifica massa de 100 toneladas e alerta população sobre descarte de resíduos de cozinha durante período festivo; custo para limpeza será de cerca de R$ 15,7 milhões
A empresa de água e esgoto do Reino Unido, a Thames Water (Águas do Tâmisa), encontrou um grande bloqueio de gordura na rede de esgoto de Whitechapel, distrito de Londres conhecido pelos assassinatos em série de Jack, o Estripador, em 1888.
A formação, composta por gordura, óleos, restos de alimentos e resíduos que não deveriam ser descartados no vaso sanitário, pesa cerca de 100 toneladas e se estende por aproximadamente 100 metros.
Segundo a Águas do Tâmisa, o acúmulo desse tipo de resíduo aumenta durante dezembro e janeiro, quando as tradições culinárias de fim de ano levam mais pessoas a despejar gordura e molhos na pia. A empresa afirma registrar custos de cerca de £2,1 milhões (cerca de R$ 15,7 milhões) para remover obstruções apenas nesses dois meses.
Pesquisas encomendadas pela companhia mostram que grande parte da população despeja substâncias que solidificam nos canos.
Entre os entrevistados, mais de 40% admitiram descartar sucos de carne na pia; 39% molho gravy (molho de carne tradicional); 18% gorduras animais; 28% creme e 21% pudins à base de leite. Esses materiais endurecem, bloqueiam tubulações e podem causar transbordamentos de esgoto em casas e vias públicas.
A empresa explicou que o bloqueio encontrado agora é considerado uma espécie de “neto” do fatberg (iceberg de gordura) de Whitechapel descoberto em 2017, um dos maiores já registrados no país.
Assim como o anterior, o novo bloqueio surgiu da combinação de gorduras com itens não descartáveis, como lenços umedecidos, que se aderem e formam massas compactas.
Tim Davies, chefe de Operações de Resíduos para o Norte de Londres na Águas do Tâmisa, disse ao site da empresa que a formação reforça os impactos do descarte indevido.
“O custo de desentupimento e reparo de esgotos chega a dezenas de milhões de libras todos os anos, e esse dinheiro, em última análise, vem dos nossos clientes.”
Blocos medonhos como este ameaçam cidades de todo o mundo. Eles podem surgir de maneira rápida e imprevisível.
Formados com material lançado ao esgoto pelas empresas e residências, eles bloqueiam os sistemas de esgoto, causando alagamentos e levando poluição até os rios próximos.
As famílias e empresas podem ver o esgoto retornando para seus imóveis ou fluindo para as ruas no lado externo, se os icebergs de gordura maiores não forem controlados.
Os trabalhadores da Thames Water (responsável pelo sistema de esgotos de Londres) levaram nove semanas para retirar aquela massa coagulada nos subterrâneos de Whitechapel em 2017.
E, no final de 2025, foi descoberto que ela havia retornado, crescendo novamente até atingir mais de 100 toneladas.
As companhias de água do Reino Unido enfrentam cerca de 300 mil desses acúmulos de gordura, óleo e graxa solidificada todos os anos.
Em Nova York, nos Estados Unidos, 40% dos acúmulos no esgoto são formados por graxa. A cidade gasta cerca de US$ 18,8 milhões (cerca de R$ 92 milhões) anuais, retirando a graxa e abrindo os bloqueios dos esgotos que passam por baixo das suas ruas.
Esses mastodontes que concorrem com o espécime encontrado em Londres se formam com frequência alarmante.
Icebergs de gordura gigantes já foram descobertos ocultos no subsolo de subúrbios de cidades como Detroit e Baltimore, nos Estados Unidos; Oxford e Liverpool, no Reino Unido; e em Melbourne e Sydney, na Austrália.
O grande desafio é detectar os blocos antes que eles atinjam proporções gigantescas.
Ocultos nas úmidas profundezas das cidades, os fatbergs se formam totalmente fora da nossa visão, com materiais que fazemos questão de esquecer, assim que os lançamos no esgoto.
Agora, as companhias de saneamento estão adotando novas tecnologias para ajudá-las nas suas batalhas subterrâneas contra os icebergs de gordura. Elas empregam inteligência artificial para ajudá-las a identificar os sinais dos acúmulos de gordura e intervir a tempo.
Grupos de robôs autônomos também poderão ajudar a manter os icebergs de gordura sob controle. Cidades dos EUA e do Reino Unido já enviam há tempos robôs simples, equipados com câmeras, para examinar suas redes de esgoto.
Eles capturam imagens que podem ser empregadas para identificar sinais de problemas, como fatbergs em estágio inicial. Eles costumam ser controlados manualmente por operadores remotos.
“Com suas capacidades sensoras, o robô pode encontrar sua localização dentro da rede de esgoto”, explica a professora de controle e processamento de sinais Lyudmila Mihaylova, da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, participante do projeto da UE.
“Ele pode inspecionar e deter os bloqueios”, segundo ela. “O plano é incluir até um braço que poderá agarrá-los e retirá-los.”
O robô é equipado com câmeras ópticas, sensores acústicos, tecnologia LiDAR (da sigla em inglês Light Detection and Ranging, ou seja, detecção e medição com luz) e unidades de medição inercial, para rastrear o dinâmico mundo dos esgotos.
Mihaylova afirma que valerá a pena enfrentar estes problemas. Ela prevê que os robôs do esgoto, algum dia, “trarão economias significativas”.
Outro bônus será a “proteção dos trabalhadores contra a exposição ao ambiente nocivo dos esgotos”, segundo Mihaylova.
Felizmente, a era em que seres humanos são obrigados a entrar em túneis cobertos de sujeira, para cortar paredes de gordura coagulada e abrir caminho com jatos d’água, pode estar com os dias contados.
Além disso, as companhias de saneamento recomendam ações simples, como retirar restos de comida antes de lavar utensílios, usar filtros nos ralos, armazenar óleos usados para descarte adequado e nunca jogar substâncias gordurosas ou itens como lenços umedecidos na rede de esgoto.
Fonte: BBC News, g1, Folha SP, CNN.
Foto: Getty Images via BBC.


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