Uma vila remota do Alasca passou a usar a correnteza do rio Kvichak para produzir eletricidade renovável em uma microrrede local, sem barragem, sem painéis solares e sem turbinas eólicas.
O sistema RivGen, da empresa americana Ocean Renewable Power Company, a ORPC, foi implantado em Igiugig em parceria com a comunidade, que historicamente depende de geradores a diesel para manter serviços, casas e pequenos negócios em funcionamento.
A tecnologia chama atenção porque transforma o fluxo natural do rio em geração elétrica previsível.
Em vez de represar a água ou desviar o curso do Kvichak, o equipamento opera submerso e capta a energia cinética da correnteza, em um modelo diferente das hidrelétricas convencionais.
O projeto instalado em Igiugig usa o RivGen, um sistema hidrocinético de corrente fluvial conectado à rede da própria vila.
Segundo o Departamento de Energia dos Estados Unidos, uma unidade de 35 kW transmitiu mais de 8 MWh de eletricidade à pequena rede local após um ano completo de operação e, em diversos momentos, supriu mais da metade da demanda de pico da comunidade.
Como funciona a turbina submersa no rio Kvichak
O RivGen funciona de maneira semelhante a uma turbina eólica instalada debaixo d’água.
No lugar do vento, a máquina usa a paraça da água em movimento para girar turbinas hidrocinéticas, que acionam um gerador e enviam eletricidade para a infraestrutura elétrica da comunidade.
A diferença central está na fonte de energia. Enquanto sistemas solares variam conforme a luz disponível e turbinas eólicas dependem da intensidade dos ventos, rios com fluxo constante podem oferecer geração mais regular, desde que tenham velocidade e profundidade adequadas para esse tipo de equipamento.
Documentos da Comissão Federal Reguladora de Energia dos Estados Unidos descrevem o sistema como uma tecnologia projetada para operar ao longo do ano, usando as correntes naturais do rio Kvichak.
O mesmo registro informa que os sensores do equipamento monitoram velocidade da água, rotação das turbinas, geração elétrica e condições internas dos componentes.
Essa operação automatizada é relevante para áreas isoladas, onde equipes técnicas especializadas nem sempre estão disponíveis com facilidade.
Ainda assim, o projeto também incluiu treinamento local, com moradores envolvidos em etapas como instalação, retirada, inspeção e manutenção do sistema.
Microrrede no Alasca reduz dependência de geradores a diesel
Em muitas regiões remotas do Alasca, a eletricidade depende de microrredes movidas a diesel.
O combustível precisa ser transportado por longas distâncias, armazenado localmente e usado de forma contínua para garantir o fornecimento, o que aumenta custos e riscos logísticos.
A proposta do RivGen é reduzir parte dessa dependência com uma fonte instalada no próprio território.
A ORPC afirma que o sistema foi desenhado para comunidades fora de grandes redes elétricas, com construção modular, possibilidade de montagem em áreas remotas e conexão direta a redes locais existentes.
Em Igiugig, a tecnologia não elimina automaticamente todos os geradores a diesel.
Ela entra como uma fonte renovável capaz de complementar a microrrede e aliviar o uso de combustível fóssil, especialmente nos períodos em que a correnteza consegue atender parcela significativa da demanda.
A empresa informa que o projeto em parceria com o Conselho da Vila de Igiugig inclui duas unidades RivGen, atualização de controles inteligentes da rede e uso de armazenamento em baterias.
Segundo a ORPC, o conjunto busca reduzir o consumo de diesel da comunidade entre 60% e 90%, além de diminuir custos operacionais e riscos ambientais.
Monitoramento ambiental acompanha salmões no rio
A convivência da turbina com o ambiente local é um dos pontos mais sensíveis do projeto.
O rio Kvichak integra uma região importante para o salmão, recurso associado à economia, à alimentação e à cultura de comunidades do sudoeste do Alasca.
De acordo com o Departamento de Energia dos Estados Unidos, o monitoramento rigoroso do RivGen não registrou interações negativas com populações migratórias locais de salmão.
A informação é relevante porque a tecnologia depende da instalação dentro do leito do rio, em uma área onde a proteção da vida aquática é condição central para a aceitação do projeto.
Antes da implantação comercial, estudos com protótipos em 2014 e 2015 já haviam observado a interação de salmões adultos nas proximidades de uma turbina em operação, sem impactos registrados sobre os peixes, segundo o próprio Departamento de Energia.
O órgão também destacou que o Kvichak abriga uma das maiores rotas de salmão-vermelho selvagem do mundo.
Esse acompanhamento não transforma a tecnologia em solução automática para qualquer rio.
Cada implantação depende de licenciamento, análise ambiental, velocidade da correnteza, profundidade, tráfego fluvial, espécies presentes e características da rede elétrica que receberá a energia.
Energia limpa vai além do sol e do vento
A experiência em Igiugig amplia o repertório de soluções renováveis para áreas fora dos grandes centros consumidores.
Em vez de depender de parques solares, torres eólicas ou grandes barragens, a vila passou a explorar uma fonte que já fazia parte da paisagem local: a correnteza do rio.
O modelo também reduz o impacto visual em comparação com outras infraestruturas de geração.
Como o equipamento fica submerso, a produção de eletricidade não aparece no horizonte como uma torre eólica nem ocupa grandes áreas de solo como um campo de painéis solares.
Ainda assim, a escala continua local. O RivGen foi desenvolvido para microrredes e comunidades isoladas, não para substituir grandes sistemas elétricos nacionais.
Sua aplicação faz mais sentido onde há rios com fluxo adequado, consumo próximo e dificuldade de acesso a combustíveis ou linhas de transmissão.
O caso do Alasca mostra que a transição energética em regiões remotas pode exigir soluções diferentes das adotadas em áreas urbanas.
Em vilas ribeirinhas, a geração hidrocinética pode ocupar um espaço específico: produzir eletricidade perto do consumo, com menor interferência estrutural no curso da água e sem depender exclusivamente das condições do sol ou do vento.
No rio Kvichak, a correnteza passou a dividir com o diesel a responsabilidade de manter a microrrede de Igiugig abastecida.
A máquina submersa não altera o papel estratégico dos geradores em uma comunidade isolada, mas demonstra como fontes locais e constantes podem reduzir parte da exposição ao custo do combustível transportado.
Fonte: CPG – Click Petróleo e Gás.
Imagem Ilustrativa.


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