O aquecimento global já está alterando a dinâmica dos oceanos e mudando a rota de espécies marinhas, com efeitos diretos sobre a pesca e a economia em diferentes regiões do Brasil.
“Com a elevação da temperatura da água, os peixes passam a buscar áreas mais frias, deslocando cardumes para latitudes mais ao sul ou para zonas mais profundas, o que torna a atividade pesqueira mais instável”, explica o professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e membro da rede de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), Ronaldo Cavalli.
Com a chegada do que está sendo classificado de “super El Niño” este ano, a situação pode se agravar, já que o fenômeno climático aquece ainda mais o Oceano Atlântico.
De acordo com a professora Flávia Frédou, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e integrante da rede de pesquisadores do INPO, o aumento da temperatura é uma questão global que afetará as águas tropicais, onde estão países em desenvolvimento, que têm a pesca como fator muito importante para a segurança alimentar. Ela prevê uma queda de produtividade de 30% no setor por conta de temperaturas mais altas.
Estudo da Universidade de São Paulo (USP), divulgado no ano passado, mostra que o conjunto de atividades que dependem diretamente dos recursos marinhos – conhecido como economia azul – já representa 2,9% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e, de forma direta, 1,07% dos empregos. Quando considerados os efeitos indiretos e os elos produtivos na cadeia de suprimentos, esse número sobe para 6,5% do PIB, envolvendo mais de 4,7 milhões de trabalhadores.
Cavalli explica que “pescado” engloba não só peixes, mas também camarão, lagosta, ostras, mexilhões e outros frutos do mar, e afirma que, hoje, a maior parte do produto disponível no mercado global vem de sistemas de cultivo.
Ele ressalta que, embora a aquicultura (criação) avance, a pesca segue com forte dimensão social, por sustentar comunidades tradicionais. Para ilustrar a diferença entre as atividades, ele compara a criação de pescado ao frango produzido em granjas, enquanto a pesca seria semelhante à caça, onde o resultado depende do esforço e da disponibilidade do recurso no ambiente.
O pesquisador relata sinais de mudanças já observadas na distribuição de espécies. Um exemplo é a albacorinha, “prima do atum”, que antes era mais pescada no Nordeste e passou a aparecer com mais frequência no Sudeste e no Sul, movimento associado ao aquecimento das águas. Segundo ele, isso pressiona os custos e altera a rotina de trabalho.
“Toda aquela comunidade pesqueira, a indústria que tinha para pescar albacorinha mudou. Os (pescadores) pequenos não estão indo mais atrás, porque é caro. E os médios e grandes pescadores estão gastando mais, porque gastam mais diesel para chegar ao Sul, é mais tempo de mar, mais horas de trabalho”, avalia, afirmando que há reflexos em toda a cadeia, do beneficiamento ao transporte.
Ele também observa que a mudança de rota entre países gera novas questões. Diante da possível chegada da albacorinha a águas internacionais mais ao Sul, especialistas também alertam para a necessidade de cooperação entre países, já que um eventual aumento da pesca no Uruguai e na Argentina pode exigir acordos. “Talvez venha a requerer a negociação de um gerenciamento compartilhado da pesca entre os três países”, alerta.
Cavalli chama atenção ainda para impactos sobre a aquicultura e para riscos sanitários. Ele cita a mortandade de quase 90% de ostras em Santa Catarina após ondas de calor, combinação que pode empurrar os animais para fora da faixa de conforto térmico e favorecer doenças.
O professor relaciona o aumento de temperatura e o excesso de nutrientes ao crescimento acelerado de algas, fenômeno associado à “maré vermelha”, que pode levar à mortandade de peixes e à contaminação de moluscos filtradores.
No caso do camarão, ele explica que a pesca depende do equilíbrio entre mar e estuários, onde ficam os berçários. Em anos de chuva intensa, a água doce pode impedir a entrada de pós-larvas nas lagoas, derrubando a produção. Cavalli cita que, só no município de Rio Grande, cerca de 15 mil pescadores dependem principalmente do camarão, o que torna o setor sensível a extremos climáticos.
Ele destaca como principais gargalos estruturais a falta de estatísticas atualizadas – ele afirma que o último dado oficial do governo federal sobre o setor é de 2011 – e a descontinuidade de políticas públicas, com mudanças frequentes no “endereço” institucional da pesca dentro do governo.
Para mitigar riscos, ele menciona um pacote de boas práticas de manejo na aquicultura, como escolha adequada de áreas e espécies, diversificação e investimento em genética, mas sustenta que a resposta mais ampla depende de decisões de Estado e de ações efetivas para reduzir a mudança climática.
Fontes: Estadão, Oceana.
Foto: Juan Cuetos | Oceana.


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