O avanço silencioso dos fungos que a ciência não consegue combater

A luta global contra infecções está enfrentando um novo inimigo que vai além das superbactérias, os fungos resistentes a medicamentos.

Liderados pelo professor de micologia clínica na Holanda, Paul Verweij, 50 cientistas publicaram um apelo na revista Nature Medicine para enfrentar o que ele classifica como um “surto silencioso” que ocorre fora do radar.

“Veja, por exemplo, a Candida auris [um tipo de fungo que pode causar infecções graves e é frequentemente resistente a medicamentos] — são necessárias medidas de controle de infecção muito, muito rigorosas em hospitais, é preciso um bom diagnóstico, um bom controle de infecção, é preciso fazer acompanhamento dos pacientes, e isso simplesmente não está disponível nesses países de baixa e média renda”, diz ele, em entrevista à emissora pública dos Estados Unidos NPR. “As pessoas morrem, e nem se sabe que elas têm uma infecção fúngica. Você não saberia se ela era resistente”, aponta.

Fungicidas nas lavouras: o motor da mutação

Segundo o cientista, a raiz desse problema alarmante encontra-se no uso desenfreado de defensivos agrícolas. Verweij explica que, sem os fungicidas, as lavouras teriam “uma perda de rendimento de talvez 30% ou 40%”. No entanto, o custo dessa proteção é alto para a saúde humana.

“O problema é que os fungicidas são muito semelhantes aos medicamentos que damos aos pacientes. Então o fungo se torna resistente ao fungicida e, ao mesmo tempo, nossos azóis [compostos químicos usados como fungicidas] médicos não funcionam tão bem”, detalha o professor, ressaltando que esse é um “efeito não intencional”, já que os fungos que afetam plantas não são os mesmos que causam doenças em humanos.

O contágio não exige contato direto com as lavouras, pois a ameaça viaja literalmente pelo ar. “Então, os bolores – os fungos filamentosos– têm esporos que são liberados no ar. Esses esporos viajam longas distâncias. Não se entende muito bem o porquê, mas acredita-se que eles cheguem até as correntes de jato, bem no alto da atmosfera, e possam viajar por continentes. Nós inalamos esses esporos o tempo todo”, explica.

A dificuldade em criar remédios contra fungos

Do ponto de vista médico, o desafio é grande devido à própria biologia desses organismos. “Para os fungos, como são semelhantes às células humanas, é bastante difícil encontrar um medicamento que mate o fungo sem prejudicar a célula humana. Assim, nos últimos 75 anos, desenvolvemos apenas cinco classes de antifúngicos. Os azóis são, de longe, os mais importantes”, explica.

“O problema é que, se você não puder usar uma dessas classes de medicamentos, talvez lhe reste apenas uma alternativa. Isso já está causando problemas. Por exemplo, se o fungo estiver no cérebro, você terá pouquíssimos medicamentos que realmente conseguem chegar até ele”, lamenta o pesquisador.

O impacto dessa resistência já é medido em vidas, aprofundando as desigualdades globais em saúde. Verweij cita um estudo holandês que comparou infecções tratáveis e resistentes. “Há uma diferença de cerca de 20% na mortalidade — você tem 20% mais probabilidade de morrer. Então, isso é um impacto significativo”, avalia. O cenário é ainda mais devastador em países de baixa e média renda.

Apesar da gravidade, a comunidade científica enxerga uma janela de oportunidade, impulsionada pela inclusão dos fungos na lista de patógenos da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2022. Para reverter o quadro, os especialistas exigem que novos fungicidas agrícolas passem por avaliações de impacto na saúde humana. Contudo, Verweij ressalta que o desafio esbarra em financiamento. “O problema é que, em fungos, precisamos fazer o básico: desenvolver as ferramentas, fazer a vigilância, configurar as redes [de laboratório]. E às vezes é difícil conseguir financiamento para essas coisas básicas”.

Fonte: Revista Fórum.

Imagem: Peter G. Werner.

Seja o primeiro

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *