O custo invisível das ondas de calor: estudo aponta queda de renda e aumento da pobreza na Europa

Enquanto uma intensa onda de calor atinge diversos países europeus nesta semana, um novo estudo da organização de pesquisa climática Climate Analytics chama atenção para um efeito menos visível dos eventos extremos: o impacto direto sobre a renda das famílias.

A pesquisa concluiu que a combinação entre calor extremo e seca já reduz, em média, quase 3% da renda dos lares europeus. O problema tende a se agravar à medida que o planeta aquece, ampliando desigualdades e aumentando o número de pessoas em situação de vulnerabilidade econômica.

Publicado na revista científica Global Environmental Change, o estudo analisou dados de 2004 a 2022 e constatou que os efeitos de ondas de calor e secas não apenas se somam, mas se potencializam quando ocorrem simultaneamente.

Em média, uma onda de calor reduz a renda familiar em 0,7%, enquanto uma seca provoca perdas de 1,8%. Quando os dois fenômenos atingem uma mesma região ao mesmo tempo, a queda média de renda se aproxima de 3%.

Segundo os pesquisadores, os impactos econômicos estão associados a uma série de fatores, como piora das condições de saúde, redução da produtividade dos trabalhadores, queda da produção agrícola e interrupções em serviços dependentes de recursos hídricos, incluindo transporte e geração de energia.

Quando o calor extremo coincide com a seca, os danos podem ser muito maiores. Nossa pesquisa mostra que esses eventos combinados ampliam as perdas econômicas sofridas diretamente pelas famílias europeias, e eles se tornarão mais frequentes à medida que o aquecimento global aumenta”, afirmou Jessie Schleypen, economista sênior de mudanças climáticas e desenvolvimento da Climate Analytics e autora principal do estudo.

Os mais pobres pagam a conta mais alta

A análise aponta que os impactos econômicos não são distribuídos de forma igual entre a população. As famílias de menor renda tendem a sofrer perdas proporcionalmente maiores, aprofundando desigualdades já existentes.

De acordo com o estudo, os 20% mais pobres da população europeia podem registrar reduções de renda de cerca de 4%, enquanto entre os demais grupos as perdas variam entre 1,1% e 1,8%.

As diferenças também aparecem entre regiões. Áreas que enfrentaram mais episódios de calor extremo e seca nas últimas duas décadas registraram as maiores perdas estimadas de renda. Os casos mais severos foram observados em Madri, na Espanha, onde a queda chegou perto de 10%, seguida pela região central da Hungria (9,4%) e pela região central espanhola (8,8%).

O que muda em um mundo mais quente

Os pesquisadores também modelaram cenários futuros e concluíram que limitar o aquecimento global faz diferença significativa para a renda das famílias. Se a temperatura média do planeta para mantida próxima de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais — meta estabelecida pelo Paris Agreement — a perda média de renda das famílias europeias seria de cerca de 7% até o fim do século.

Já em um cenário compatível com as políticas climáticas atuais, que pode levar o planeta a um aquecimento de 2,7°C até 2100, a redução média da renda chegaria a 27%.

Nesse contexto, o número de europeus expostos ao risco de pobreza também aumentaria significativamente. O estudo estima que cerca de 60 milhões de pessoas estariam nessa situação em um mundo 1,5°C mais quente. Em um cenário de 2,7°C, esse contingente poderia ultrapassar 127 milhões.

Países do sul e do leste europeu aparecem entre os mais vulneráveis. Grécia, Espanha, Romênia, Bulgária e Chipre estão entre os locais onde os efeitos econômicos das mudanças climáticas tendem a ser mais severos.

Fonte: Um Só Planeta.

Foto: AFP Photo.

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