Processo geológico levou polo Sul a congelar antes do Norte

A Antártica Oriental abriga o maior manto de gelo da Terra, com água suficiente para elevar o nível global do mar em 52 metros caso derretesse totalmente. Mas há décadas que os cientistas se perguntam como e por que esse manto de gelo se formou.

Na verdade, são dois mistérios interligados. Primeiro, a Antártica foi coberta de gelo há cerca de 34 milhões de anos — um período conhecido como transição do Eoceno para o Oligoceno —, enquanto a região do Ártico permaneceu praticamente livre de gelo por aproximadamente mais 25 milhões de anos.

Então, os níveis de dióxido de carbono na atmosfera estavam caindo drasticamente e desempenharam um papel importante na queda das temperaturas. Se esse fosse o único fator por trás da transição, no entanto, ambos os polos deveriam ter se resfriado ao mesmo tempo. Mas isso não aconteceu.

Um poderoso processo geológico explica por que a Antártida congelou há cerca de 34 milhões de anos, bem antes do Ártico, aproximadamente 25 milhões de anos atrás. A descoberta é descrita em um artigo publicado nesta quinta-feira (2) na revista Science.

Ao avaliarem a topografia da Antártida e modelos computacionais para reconstruir como a superfície do continente evoluiu, os autores do estudo identificaram que um processo geológico impulsionou a elevação de uma cadeia de montanhas no leste antártico. Essa cadeia ultrapassou um limiar de altitude crucial para permitir a formação e a expansão de geleiras e, também, para que o gelo se estabelecesse.

O resultado foi o surgimento da vasta camada de gelo da Antártida oriental em uma época em que as temperaturas globais eram cerca de 5 graus Celsius mais altas do que hoje. Isso deixou o polo Sul com uma calota de gelo muito antes que uma tendência de resfriamento global de longo prazo permitisse que uma calota de gelo se estabelecesse ao redor do polo Norte.

A Antártida fez parte de um supercontinente Gondwana, que incluía o que hoje são as áreas da África e da América do Sul, por exemplo. Como parte de um processo chamado tectônica de placas, essas áreas se separaram e se deslocaram lentamente em direção aos pontos onde estão hoje.

“Nosso estudo mostra que um antigo processo geológico, iniciado há mais de 160 milhões de anos durante a fragmentação continental da África e da Antártida e que se desenrolou ao longo de muitas dezenas de milhões de anos, determinou quando e onde as principais camadas de gelo da Terra poderiam se formar durante a transição do Eoceno para o Oligoceno, há aproximadamente 34 milhões de anos”, afirmou o geocientista Thomas Gernon, da Universidade de Southampton, na Inglaterra, um dos autores do novo estudo.

O processo geológico mencionado pelo pesquisador é um fenômeno chamado ondas do manto, que consistem em perturbações de movimento lento nas profundezas da Terra, desencadeadas durante a fragmentação continental.

“Essas ondas podem remover rochas densas da parte inferior das placas tectônicas, tornando os continentes mais leves e fazendo com que se elevem, formando, por fim, terrenos elevados, como planaltos e cadeias de montanhas”, disse Gernon.

Quando essas ondas do manto se moveram sob a Antártida, causaram a formação de um grande planalto coroado pelas Montanhas Gamburtsev, uma cordilheira na parte central da Antártida oriental. Embora essas montanhas atinjam 3.390 metros de altura, a cordilheira está hoje soterrada sob a maior camada de gelo do mundo.

Os pesquisadores afirmaram que a erosão e a elevação causadas pelas ondas do manto empurraram gradualmente a paisagem para altitudes suficientemente elevadas para que o gelo se estabilizasse, mesmo em um período de clima global quente.

Clima e topografia

“Nosso estudo ressalta a importância da interação entre as mudanças climáticas e as mudanças topográficas”, disse a geocientista Thea Hincks, da Universidade de Southampton, coautora do estudo.

Para a Antártida no final do Eoceno, o limiar de altitude necessário para a formação de gelo permanente situava-se aproximadamente entre 1.500 metros a 2.000 metros, segundo Gernon. As simulações do estudo indicaram que, por volta de 45 milhões de anos atrás, grandes áreas da paisagem do leste da Antártida haviam se elevado acima desse limiar.

“Assim como as temperaturas caem à medida que subimos uma montanha alta, altitudes mais elevadas têm maior probabilidade de reter neve durante todo o ano. Descobrimos que, antes de a Antártida se tornar glaciarizada, a área das Montanhas Gamburtsev acima da altitude crítica para a manutenção do gelo aumentou drasticamente. Por volta de 34 milhões de anos atrás, quase 90% da região situava-se acima desse limiar, em comparação com apenas cerca de um terço há 60 milhões de anos”, afirmou Gernon.

A situação foi diferente no Ártico, onde as geleiras cresceram e diminuíram ao longo dos últimos 50 milhões de anos, mas as grandes camadas de gelo só se estabilizaram há menos de 10 milhões de anos. Não há terra propriamente dita no polo Norte. Ele está situado no meio do oceano Ártico. Isso significa que não havia terreno para atingir o limiar de altitude mais cedo, a fim de promover a formação de gelo permanente.

“O clima precisava esfriar por meio da redução das concentrações atmosféricas de dióxido de carbono antes que o gelo permanente pudesse se formar em altitudes mais baixas”, disse Gernon.

Fontes: Folha SP, g1.

Foto: Deborah Zabarenko/Reuters.

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