Diferente dos anos 80, hoje em dia é raro ver um inseto preso no para-brisa do carro, ou então achar dezenas de pequenos animais debaixo de uma pedra no quintal. Mas acredite, esse não é um evento só do Brasil ou dos centros urbanos. O “apocalipse dos insetos” é um fenômeno global e os cientistas acabaram de descobrir um se seus desdobramentos.
Conforme o estudo lançado recentemente na revista Nature, pela primeira vez foi possível medir a diferença real que o desaparecimento dos insetos tem causado. Algumas estimativas colocam que as populações de insetos diminuem 1% ao ano.
Os seres humanos não comem insetos polinizadores. Ainda assim, sem eles, a nossa espécie acaba por morrer de fome. Em 50 anos, quase três quartos desses insetos desapareceram – uma mortandade em massa que põe em risco a saúde nutricional de 2 bilhões de pessoas.
Fome invisível e o desequilíbrio nutricional
Estima-se que um quarto da população mundial viva o que epidemiologistas chamam de “fome invisível” (ou “fome oculta”): carências graves de micronutrientes que prejudicam o desenvolvimento cognitivo e elevam a mortalidade infantil. O problema não é a falta de calorias, e sim um profundo desequilíbrio entre a ingestão de energia e a densidade nutricional (a relação entre a quantidade de micronutrientes essenciais e o total de calorias de um alimento).
Num primeiro momento, esse déficit costuma ser atribuído às condições de vida em países de menor renda, onde há desigualdade no acesso a uma alimentação saudável. Só que essa epidemia de um tipo novo vem se espalhando e já afeta também regiões mais ricas, como partes da Europa e da América do Norte. A humanidade avança para uma crise nutricional que, de acordo com esse estudo publicado em 6 de maio na revista Nature, seria agravada em parte pelo desaparecimento de insetos polinizadores selvagens – uma ligação que a pesquisa em saúde pública ainda não havia demonstrado com tanta clareza.
Por que os insetos polinizadores selvagens importam para a dieta
A lógica é direta: quando os insetos diminuem, a polinização falha; com menos polinização, a produtividade cai; e, com colheitas mais escassas, a dieta das famílias empobrece e a renda fica mais frágil.
Um equilíbrio suspenso a um bater de asas
Conduzido por equipes que reúnem instituições britânicas, americanas, finlandesas e nepalesas, o estudo acompanhou, durante um ano, dez aldeias agrícolas do Nepal. Os pesquisadores mapearam quais espécies de insetos visitavam quais culturas, mediram a densidade nutricional alcançada por essas culturas conforme o nível de polinização e contabilizaram a renda gerada pelas colheitas. Esse monitoramento abrangente permitiu estabelecer um nexo causal entre o declínio dos polinizadores e o empobrecimento nutricional das famílias que dependem dessa produção.
Segundo os autores, os polinizadores selvagens garantem 44% da renda agrícola e mais de 20% da ingestão de vitaminas A, E e B9 nessas comunidades.
Vale destacar que a falta de ingestão desses nutrientes pode levar à sérios problemas de saúde como a perda de visão e defeitos congênitos.
Thomas Timberlake, autor principal do estudo, afirma: “Nosso estudo demonstra que a biodiversidade não é um luxo: ela é fundamental para a nossa saúde, a nossa nutrição e os nossos meios de subsistência. Ao revelar como espécies como os polinizadores sustentam a nossa alimentação, mostramos tanto os riscos que a perda de biodiversidade impõe à saúde humana quanto as enormes oportunidades de melhorar as nossas vidas trabalhando em conjunto com a natureza”.
A situação se torna ainda mais difícil por uma perda dupla: essas famílias vivem em condições duras e não contam com rede de proteção. Quando a renda agrícola cai, elas passam a comer pior e ficam mais expostas a doenças. Se adoecem, deixam de conseguir trabalhar a terra adequadamente, a renda encolhe ainda mais e as deficiências nutricionais se agravam.
Nesse sentido, vale apontar que cerca de 2 bilhões de pessoas dependem da agricultura de pequenos proprietários, como as estudadas na pesquisa, ou seja, um perigo eminente de insegurança alimentar se anuncia.
Conforme a Live Science, por volta de 75% das culturas globais precisam da polinização para poder prosperar. Por exemplo, as culturas de café, amêndoas e cacau dependem completamente dos insetos para poder se sustentar.
Para os autores, esse ciclo só pode ser interrompido com a recuperação de condições favoráveis aos polinizadores selvagens dentro e no entorno das áreas cultivadas. Replantar flores silvestres, reduzir o uso de pesticidas e preservar os habitats de abelhas endémicas são medidas locais, de baixo custo, viáveis de implementar.
Se essas medidas forem tomadas, o rendimento agrícola pode se elevar em até 30% e aumentar a quantidade de vitaminas em até 9%.
No Brasil, nos últimos anos têm se tornado mais frequente o cultivo de abelhas sem ferrão, conhecidas por terem um mel diferente e se adaptarem bem na flora brasileira. Espécies como as jataí, uruçu, mandaçaia e jupará são as mais conhecidas dessa nova leva que desafia o “apocalipse dos insetos”.
A agonia planetária
Seria tentador minimizar o quadro, concluindo depressa demais que se trata de algo restrito ao Nepal – mas isso seria um erro grave. Um estudo publicado em julho de 2024 na revista Nature Ecology & Evolution, com mais de 1 500 campos cultivados em 27 países ao longo de 30 anos, já havia mostrado que a queda dos polinizadores reduz as produtividades agrícolas em todo o planeta.
Em certas regiões da Europa, o declínio chega a níveis chocantes, entre 70 e 90%, em áreas onde 70 a 75% das plantas cultivadas dependem da polinização por insetos (borboletas, abelhas, mamangavas, besouros, etc.).
Todos os indicadores estão no vermelho, e o caso dessas dez aldeias nepalesas é um retrato muito representativo do futuro das produções agrícolas no mundo inteiro se nada mudar. Mais uma batalha que parece perdida, dada a nossa habilidade quase instintiva de fingir que não vemos a fumaça dos incêndios enquanto ela não arde nos olhos e nas narinas.
Fontes: New Energy Brasil, Um Só Planeta, Aventuras na História.
Foto: Reprodução.


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