Entre as estratégias possíveis para combater a crise climática, a captura de carbono costuma ser vista com mais ceticismo do que entusiasmo. Comparada ao investimento em fontes de energia renovável, cada vez mais baratas e acessíveis ao redor do mundo, a remoção do gás carbônico da atmosfera ou sua captura em complexos industriais antes que se disperse ainda é cara, de difícil implementação e com pouca aplicação comercial hoje.
Entretanto, para Omar Yaghi, prêmio Nobel de Química em 2025, essa crítica é “irrelevante”. Ele sustenta que a captura de carbono não é uma promessa para o futuro, mas uma urgência atual —e a maneira mais realista de combater a mudança climática antes que seja tarde demais.
“Vamos continuar queimando combustíveis fósseis”, disse o químico à Folha durante a 75ª Reunião do Prêmio Nobel de Lindau, realizada de 28 de junho a 3 de julho na Alemanha. “Não existe nenhuma outra tecnologia capaz de substituí-los com a velocidade e escala necessárias para conter a crise. Precisávamos ter feito algo a respeito antes, mas não fizemos, e não acho que faremos. A economia mundial depende de combustíveis fósseis —é preciso encarar esse fato de maneira realista.”
Nascido em um campo de refugiados palestinos na Jordânia em 1965, Yaghi teve uma infância precária, crescendo sem acesso regular a saneamento básico ou educação. Aos 15 anos de idade, sua família conseguiu enviá-lo aos Estados Unidos, onde completou o ensino médio e se formou em Química na Universidade Estadual de Nova York, em Albany.
Em 2025, Yaghi foi agraciado com o Prêmio Nobel de Química por seu trabalho no desenvolvimento das chamadas estruturas metalorgânicas (metal-organic frameworks, ou MOFs, na sigla em inglês). Materiais extremamente porosos, as MOFs são capazes de, entre outras coisas, capturar água do ar mesmo em ambientes áridos e remover gás carbônico da atmosfera de maneira muito mais eficiente do que outros métodos.
As MOFs ainda são muito caras para que possam ser produzidas na escala necessária para ter impacto no aquecimento global, mas especialistas apontam que seu uso é promissor em indústrias altamente emissoras para as quais ainda não há alternativa em vista, como a do cimento.
Yaghi, por sua vez, defende que as MOFs são uma solução superior às energias renováveis. “Eu acredito nelas, mas mesmo carros elétricos estão usando eletricidade de fontes fósseis. A [crise climática] é um problema urgente que precisa de uma resposta rápida”, afirma.
Alguns ambientalistas criticam a captura de carbono por uma razão estrutural: em vez de mirar na eliminação dos combustíveis fósseis, a tecnologia permite imaginar um futuro em que a humanidade não abandona o petróleo, o carvão ou o gás, dando sobrevida ao principal setor responsável pelo aumento global de temperatura.
Questionado sobre a possibilidade de a indústria petrolífera se apropriar da captura de carbono para seguir em funcionamento, Yaghi diz: “Todos nós nos beneficiamos dessa indústria. Os combustíveis fósseis transformaram nossa sociedade, e construímos economias imensas com base neles. Se temos alternativas renováveis, vamos utilizá-las —mas, no meio tempo, precisamos capturar carbono”.
O químico apresentou um cálculo na Reunião do Prêmio Nobel, que reúne dezenas de laureados e centenas de jovens cientistas do mundo inteiro, para mostrar que um investimento de US$ 400 (cerca de R$ 2.000) por ano por pessoa dos países do G20 —que inclui o Brasil, além de EUA, China, Rússia, Índia e União Europeia— seria o bastante para desenvolver MOFs na quantidade necessária para evitar as mais catastróficas consequências do aumento global da temperatura.
“A crise climática já representa um prejuízo de trilhões de dólares à economia global. Talvez esse fato mobilize as pessoas, mas não acho que os seres humanos sejam capazes de resolver problemas até que esses problemas apareçam na nossa porta”, afirma Yaghi.
Fonte: Folha SP.
Foto: Flint Huynh / Pexels.


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