Na Catalunha, cercas de cana viraram armadilhas de areia para proteger cidades da erosão costeira e reconstruir dunas. A técnica prende sedimentos levados pelo vento, aumenta o volume das praias e cria uma muralha natural contra tempestades no litoral europeu.
A iniciativa ganhou paraça no projeto IMPETUS, que acompanha experiências em Sant Pere Pescador e Calafell. A lógica é diferente das obras tradicionais: em vez de apenas repor areia de forma cara e temporária, pesquisadores e comunidades tentam recuperar o funcionamento natural do sistema praia-duna.
Catalunha enfrenta erosão agravada por portos, barragens e ocupação costeira
A erosão costeira avança em várias partes do mundo e deixou áreas do litoral europeu mais vulneráveis a inundações, marés extremas e perda de habitat. Na Catalunha, o problema é agravado por intervenções humanas como construção de portos, barragens, calçadões e edifícios próximos à faixa de areia.
Essas estruturas podem bloquear o fluxo natural de sedimentos, reduzindo a capacidade das praias de se recompor. Quando a areia deixa de circular, a costa perde volume, as dunas desaparecem e o mar avança com mais facilidade.
A fonte destaca previsões globais indicando que 50% das praias do mundo poderão desaparecer até o fim do século. Esse cenário ajuda a explicar por que soluções baseadas na natureza passaram a ganhar espaço no planejamento costeiro.
Na prática, proteger praias deixou de ser apenas uma questão turística. Em regiões costeiras, dunas, areia e vegetação funcionam como defesa contra tempestades, proteção de propriedades, suporte à biodiversidade e base econômica para cidades dependentes do litoral.
Sant Pere Pescador perdeu 50 metros de costa em 50 anos
A praia de Sant Pere Pescador virou um dos exemplos mais fortes da experiência catalã. Segundo Carla Garcia-Lozano, pesquisadora da Universidade de Girona e parceira do projeto IMPETUS, a área perdeu 50 metros de costa nos últimos 50 anos por causa da erosão.
A resposta veio com colaboração entre o Governo da Catalunha, o Parque Natural da Costa Brava, moradores e empresas locais. O objetivo foi restaurar o sistema praia-duna, recuperando a capacidade natural da praia de acumular areia e resistir melhor às tempestades.
Em 2020, foram instaladas armadilhas de areia feitas com cercas de cana. A função dessas estruturas é capturar os sedimentos transportados pelo vento e permitir que a areia se acumule lentamente, aumentando altura e volume das dunas.
O método chama atenção porque usa materiais simples e uma lógica natural. Em vez de tentar impor uma barreira rígida ao mar, as cercas ajudam a própria praia a reconstruir sua proteção.
Drones mostram aumento de 40% na altura das dunas
Desde 2021, pesquisadores do projeto IMPETUS monitoram as mudanças com drones equipados com sensores avançados. Os voos regulares permitem medir com precisão o crescimento das dunas e acompanhar a evolução do terreno ao longo do tempo.
Segundo Carla Garcia-Lozano, esse monitoramento mostrou um aumento de 40% na altura das dunas em três anos. O dado reforça que as armadilhas de areia não são apenas uma intervenção simbólica, mas uma técnica com resultado mensurável.
A tecnologia entra para provar o que a paisagem começa a mostrar. As cercas de cana prendem areia, as dunas crescem e a praia ganha mais volume para enfrentar ondas, vento e marés extremas.
Esse acompanhamento também ajuda a orientar novas decisões. Com dados de drones, pesquisadores conseguem avaliar onde as armadilhas funcionam melhor, como o sedimento se acumula e quais ajustes podem aumentar a eficiência do processo.
Dunas restauradas ajudam a proteger cidades e praias de tempestades
A importância das dunas ficou clara durante a tempestade Gloria, no início de 2020, que causou danos amplos ao longo da costa. Frederic Suñe Tobella, proprietário do Camping Las Dunas, relatou que as dunas bem cuidadas ajudaram a impedir que a água do mar inundasse sua propriedade.
Esse caso mostra a função prática da restauração costeira. Uma duna preservada não é apenas paisagem; ela atua como barreira natural entre o mar e as áreas ocupadas.
Em eventos extremos, cada metro de areia acumulada pode reduzir a paraça da água sobre propriedades, ruas e equipamentos turísticos. Por isso, a reconstrução de dunas se conecta diretamente à resiliência climática.
A experiência de Sant Pere Pescador demonstra que soluções locais podem ter impacto real quando combinam conhecimento científico, gestão pública e participação de moradores e empresas que dependem da praia.
Calafell tenta levar a técnica para área urbana
Depois dos resultados em áreas mais rurais, o projeto IMPETUS busca aplicar a mesma lógica em ambientes urbanos, começando por Calafell. A cidade fica em uma região que concentra 43% da população da Catalunha, o que aumenta a pressão sobre o litoral.
Em Calafell, dunas naturais foram substituídas ao longo do tempo por calçadões e edifícios. Esse tipo de urbanização reduz o espaço disponível para a areia se acumular naturalmente, deixando a praia menos preparada para tempestades.
A resposta foi ousada: a câmara municipal removeu partes do calçadão à beira-mar para criar mais espaço para depósitos naturais de areia. A medida mostra que proteger cidades pode exigir devolver espaço à própria praia.
Segundo Xavier Roig Munar, gestor de sistemas de dunas costeiras, as armadilhas de areia em Calafell conseguiram capturar e reter sedimentos, remodelando a praia para resistir melhor às tempestades.
Turismo e proteção costeira passam a depender da mesma solução
Em cidades como Calafell, a praia não é apenas um ambiente natural. Ela também sustenta parte importante da economia local, especialmente pelo turismo. Aron Marcos Fernández, vereador de Meio Ambiente e Obras Públicas, destacou o papel crucial da praia para a cidade.
Isso cria um desafio delicado. A mesma faixa costeira que atrai visitantes precisa ser protegida para continuar existindo. Se a erosão avança, a cidade perde proteção, paisagem, atividade econômica e qualidade ambiental.
As cercas de cana oferecem uma resposta de baixo impacto visual. Elas não transformam a praia em obra pesada, mas conduzem o acúmulo natural de areia e ajudam a reconstruir dunas onde antes havia perda de sedimentos.
O caso reforça uma mudança de mentalidade: proteger o litoral não significa apenas construir muros ou despejar areia periodicamente. Em muitos casos, significa permitir que o sistema costeiro volte a funcionar.
Soluções naturais podem substituir medidas caras e temporárias
A fonte aponta que métodos tradicionais de reposição de areia se mostraram caros e insustentáveis. Em geral, eles exigem repetir o processo com frequência, porque a areia recolocada pode voltar a ser levada pelo mar e pelo vento.
A restauração de dunas oferece uma estratégia de longo prazo. Ela não elimina todos os riscos, mas fortalece a defesa natural da praia e pode reduzir a dependência de intervenções emergenciais.
Medidas como casas elevadas e diques podem oferecer alívio imediato em algumas áreas, mas nem sempre recuperam a dinâmica ecológica da costa. Já as dunas ajudam a proteger, armazenar sedimentos e criar habitat.
Com o avanço do nível do mar e tempestades mais intensas, soluções baseadas na natureza vêm ganhando importância. A Catalunha mostra que, em vez de combater o litoral apenas com concreto, também é possível trabalhar com areia, vento, vegetação e tempo.
Cercas simples viram estratégia contra um problema global
As cercas de cana da Catalunha mostram que uma intervenção aparentemente simples pode responder a um problema complexo. Ao prender areia, elas ajudam a reconstruir dunas, proteger praias e reduzir a vulnerabilidade de áreas costeiras.
O projeto IMPETUS transforma essa experiência em modelo monitorado, com dados de drones, participação local e aplicação em diferentes contextos, de Sant Pere Pescador a Calafell.
O mais importante é que a solução não tenta dominar a praia, mas recuperar sua capacidade natural de defesa. Em um cenário de erosão, marés extremas e tempestades mais fortes, essa diferença pode ser decisiva.
Fonte: CPG – Clik Petróleo e Gás.
Imagem: Ilustrativa.


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