Falta de árvores deixa 84% dos prédios de grandes cidades europeias mais vulneráveis ao calor

A maioria das casas, prédios comerciais e escritórios das principais cidades da Europa não tem árvores suficientes nas proximidades para amenizar os efeitos das ondas de calor. Uma análise de dados abertos realizada pelo pesquisador australiano Thami Croeser, do Centro de Pesquisa Urbana da RMIT University, mostra que 84% dos 5,5 milhões de edifícios avaliados em 25 cidades europeias estão abaixo do nível de cobertura arbórea considerado necessário para proporcionar resfriamento significativo.

O levantamento analisou a quantidade de copa de árvores em um raio de até 60 metros ao redor dos edifícios. Segundo a literatura científica, é preciso que pelo menos 30% dessa área seja coberta por árvores para reduzir de forma relevante o efeito das ilhas de calor urbanas — fenômeno que faz as cidades registrarem temperaturas superiores às das áreas vizinhas por causa do excesso de concreto, asfalto e pouca vegetação.

“O problema é estrutural. Quando uma onda de calor chega, um parque localizado a alguns quarteirões não consegue resfriar um prédio cercado por asfalto”, afirma Croeser.

Entre as cidades analisadas, Colônia e Hamburgo, na Alemanha, tiveram os melhores resultados: cerca de 45% dos edifícios atingem o patamar mínimo de cobertura arbórea. Na outra ponta está Sevilha, na Espanha, onde 98% dos prédios ficam abaixo desse limite, apesar de a cidade enfrentar temperaturas extremas todos os verões.

A situação também é crítica em outras capitais europeias. Em Paris, 96% dos edifícios não alcançam a cobertura necessária, enquanto em Londres esse índice chega a 93%. Em Roma, são 85%.

Segundo o pesquisador, o dado mais preocupante é que, em boa parte das cidades, mais da metade dos edifícios possui menos de 10% de cobertura arbórea no entorno.

Desigualdade climática

O estudo também mostra que o calor não atinge todos da mesma forma. Em diversas cidades, bairros de menor renda concentram menos árvores, mais áreas pavimentadas e temperaturas mais elevadas.

“Quem tem menos recursos para se adaptar costuma viver justamente nas áreas mais quentes”, afirma Croeser.

Bairros com muitos prédios não precisam ser, necessariamente, mais quentes. Ao comparar áreas com características urbanas semelhantes, Croeser verificou que aquelas com boa cobertura de árvores eram de 4°C a 10°C mais frias do que regiões com pouca vegetação. Em Paris, a diferença chegou a 10,5°C. Para o pesquisador, o fator decisivo é a presença de árvores de grande porte, e não a quantidade de edifícios.

Lições para as cidades

O pesquisador defende que as políticas públicas priorizem três ações: plantar árvores próximas de onde as pessoas vivem e trabalham, garantir solo e água suficientes para seu desenvolvimento e preservar a arborização já existente.

“As árvores que refrescam as cidades hoje foram plantadas há décadas. Uma muda leva entre 15 e 20 anos para produzir sombra significativa. Cada árvore madura perdida representa uma perda que não pode ser compensada a tempo de enfrentar as ondas de calor atuais”, diz.

Embora a análise ainda não tenha passado por revisão por pares, ela utiliza bases públicas de dados e critérios amplamente adotados na literatura científica sobre ilhas de calor urbanas. Para gestores públicos, o levantamento reforça que ampliar a cobertura vegetal não é apenas uma medida de paisagismo, mas uma estratégia de adaptação climática com impacto direto na saúde e na qualidade de vida da população.

Fonte: Um Só Planeta.

Foto: Brazil Journal.

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