A preocupação dos americanos com a crise climática permanece elevada, apesar da ofensiva do presidente Donald Trump contra políticas ambientais e do espaço cada vez menor dedicado ao tema pela mídia dos Estados Unidos. Segundo reportagem publicada pelo jornal britânico The Guardian, cerca de dois terços da população do país afirmam estar preocupados com as mudanças climáticas e continuam apoiando medidas para enfrentá-las.
Os dados são de pesquisas conduzidas pela Universidade Yale, que mostram estabilidade nesse nível de preocupação mesmo em períodos em que outros assuntos, como inflação e conflitos internacionais, dominam o debate público.
“A eleição de 2024 não foi um referendo sobre mudança climática. Os americanos acreditam na mudança climática, se preocupam com ela e apoiam ações climáticas”, disse ao The Guardian Anthony Leiserowitz, diretor do Programa de Comunicação sobre Mudanças Climáticas de Yale.
Segundo a reportagem, embora a atenção política ao tema tenha diminuído, os impactos do aquecimento global seguem sendo percebidos pela população. A maioria dos eleitores americanos já relaciona parte do aumento do custo de vida à crise climática, de acordo com as pesquisas da universidade.
Ao mesmo tempo, iniciativas defendidas por Trump para ampliar a produção de petróleo, gás e carvão e restringir projetos de energia renovável não encontram amplo apoio popular. Levantamento indica que apenas 7% dos eleitores apoiariam candidatos favoráveis à redução do uso de energias renováveis, enquanto 14% prefeririam candidatos que defendam o aumento da produção de combustíveis fósseis.
Trump tem adotado uma agenda fortemente alinhada ao setor de combustíveis fósseis. Em março, afirmou que tentaria impedir a construção de novos parques eólicos no país. O presidente também já classificou as energias limpas como “a fraude do século” e buscou barrar projetos de geração eólica e solar.
Neste mês, sua administração destinou US$ 700 milhões para apoiar usinas termelétricas a carvão, uma das principais fontes de emissões de gases de efeito estufa. Para Leiserowitz, a oposição às energias renováveis não reflete a opinião da maioria dos americanos. “Essa guerra contra as renováveis nem sequer é compartilhada por sua própria base”, afirmou ao jornal britânico.
Os efeitos do aquecimento global já impactam diretamente o orçamento das famílias americanas. Um estudo publicado neste ano estimou que os lares dos Estados Unidos gastam entre US$ 400 e US$ 900 a mais por ano devido aos impactos da crise climática. Em alguns condados de estados como Califórnia, Louisiana e Flórida, o custo adicional supera US$ 1.300 anuais.
Segundo a economista Kimberly Clausing, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e coautora do estudo, os impactos aparecem tanto no aumento dos seguros residenciais quanto nos gastos com saúde.
Para ela, embora os efeitos sejam evidentes em regiões mais vulneráveis a eventos extremos, muitas pessoas ainda têm dificuldade de relacionar problemas cotidianos às mudanças climáticas, o que acaba dificultando respostas políticas mais amplas ao problema.
Menos cobertura, mesma preocupação
A reportagem do The Guardian destaca ainda que o interesse da população pelo tema contrasta com a redução da cobertura jornalística sobre mudanças climáticas nos Estados Unidos. Veículos como Washington Post, NPR e CBS cortaram posições de jornalistas especializados em clima nos últimos anos.
Leiserowitz argumenta que a menor presença do tema no noticiário contribui para uma espécie de “espiral de silêncio”, na qual as pessoas acabam falando menos sobre a crise climática, embora continuem preocupadas com ela.
Fonte: Um Só Planeta.
Foto: Getty Images.


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