‘Mudança do clima é a maior ameaça do século 21 em relação à saúde’

As mudanças climáticas são a maior ameaça à saúde do século 21, e milhões de pessoas já vêm sofrendo suas consequências mundo afora nas últimas duas décadas, alertaram cientistas e profissionais da área da saúde.

Falta de água e alimentos, calor extremo, enchentes constantes, poluição do ar, alteração no ecossistema, perda da biodiversidade do planeta, migrações, guerras e, claro, novas pandemias. Parece a narrativa de uma série ou filme de ficção, mas são apenas alguns dos impactos que o planeta sofrerá em breve, caso não controle a emissão de gases de efeito estufa (GEE) que colaboram diretamente para o aumento do aquecimento global.

Um estudo da The Lancet, por exemplo, uma das maiores revistas científicas do mundo, aponta que as mudanças climáticas são a maior ameaça à saúde do século 21, e milhões de pessoas já vêm sofrendo graves consequências nas últimas décadas.

“Um clima num processo acelerado de mudança tem implicações terríveis para todos os aspectos da vida humana, expondo populações vulneráveis a extremos climáticos, alterando padrões de doenças infecciosas e comprometendo a segurança alimentar, a água potável e o ar limpo”, alerta o relatório.

Tempestades e enchentes, por exemplo, não causam apenas ferimentos diretos e mortes, mas também podem provocar o fechamento de hospitais e desencadear surtos de doenças e problemas mentais de longo prazo para aqueles que perdem suas casas.

Incêndios florestais, por sua vez, deixam pessoas feridas e desabrigadas, mas também pioram dramaticamente a qualidade do ar em amplas áreas. Os recentes incêndios na Califórnia, impulsionados pela estiagem, deixaram não apenas mais de 80 mortos, mas também poluíram o ar até o estado de Massachusetts, diz Gina McCarthy, da escola de saúde pública de Harvard.

Além disso, temperaturas mais elevadas ligadas às mudanças climáticas estão aumentados o potencial alcance de doenças transmitidas por mosquitos, como a dengue. O clima mais quente também pode aumentar a resistência de micróbios a antibióticos.

Temperaturas mais altas também parecem estar afetando as colheitas mundo afora, diz o relatório. E o aumento dos níveis de CO2 na atmosfera reduz os nutrientes presentes em cereais, aumentando o risco de desnutrição mesmo para os que têm o suficiente para comer, afirma Kristie Ebie, professora de saúde global na Universidade de Washington.

Os efeitos do aquecimento global são mais graves para os mais velhos e os que vivem em cidades, as quais retêm calor e podem ser mais quentes que áreas ao redor, aponta o relatório.

A Europa e a região do Mediterrâneo Oriental, por exemplo, são mais vulneráveis do que a África e o Sudeste Asiático, pois concentram mais pessoas idosas em cidades densamente povoadas, afirmaram os especialistas.

Em comparação com o ano de 2000, 157 milhões de pessoas adicionais em situação vulnerável foram expostas a ondas de calor em 2017. O clima mais quente também levou à perda de 153 bilhões de horas de trabalho no ano passado, um salto de 60% em relação a 2000.

Com as ondas de calor dos últimos anos e as transformações cada vez mais intensas no clima, pensar em como se adaptar à nova realidade e prevenir doenças crônicas, problemas de saúde mental e epidemias, entre outras consequências da crise climática para a saúde humana, tornou-se um imperativo, segundo especialistas participantes do Summit Saúde e Bem-Estar do Estadão.

Evangelina Araújo, médica patologista e idealizadora do Movimento Médicos pelo Clima, apresentou dados preocupantes durante esse evento. “Em 2023, a poluição do ar passou ao primeiro lugar como fator de risco para doenças crônicas não transmissíveis, com 8,1 milhões de mortes no mundo”, relatou.

Além disso, a poluição também foi associada a 30% das mortes por doenças cardiovasculares e a 27% dos casos de acidente vascular cerebral (AVC). “A crise climática é uma crise em saúde e a mudança do clima é a maior ameaça do século 21 em relação à saúde”, alertou a médica.

Apesar dos efeitos observáveis, como a desidratação em crianças e a fadiga em idosos, as mudanças climáticas ainda não constam como causas de morte em certidões de óbito. Até hoje, há apenas um caso reportado, na Inglaterra: “Uma criança de 9 anos faleceu por asma causada por poluição do ar e, pela primeira vez, isso foi colocado no documento e foi feita uma ação no estado para mudanças”, contou Evangelina.

“O Brasil é o quarto maior emissor per capita de gases de efeito estufa e um dos países que mais vão sofrer as consequências porque se localiza nos trópicos”, disse Evangelina.

Além da saúde física, as mudanças do clima têm consequências para a saúde mental. “A depressão sazonal é conhecida na psiquiatria. Nossa psique depende do ambiente em que vivemos”, comentou Micheline Coêlho, meteorologista, médica e pesquisadora da Monash University, na Austrália. Sobreviventes de enchentes e outras catástrofes, por exemplo, podem ter o bem-estar psicológico prejudicado.

Para Micheline, é preciso encarar o problema sob a ótica da adaptação. “Faz muito tempo que falamos de mudanças climáticas, mas nada é feito. Não tem mais o que fazer, o clima já mudou”, lamentou. “Temos de nos adaptar com o que já temos. Muitos prédios não estão adaptados para suportar o extremo do tempo. Eles são espelhados e foram construídos quando o clima era mais ameno”, exemplificou.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, entre 2030 e 2050, as mudanças climáticas possam causar 250 mil mortes adicionais por ano em consequência de diarreia, malária, desnutrição e estresse por calor.

“Tendências de impactos das mudanças climáticas revelam um risco elevado e inaceitável à saúde, agora e no futuro”, afirmou Hilary Graham, professora da Universidade de York, no Reino Unido, e coautora do estudo publicado na The Lancet.

“A falta de progresso na redução de emissões e no estabelecimento de capacidade de adaptação ameaça tanto vidas humanas quanto a viabilidade dos sistemas de saúde nacionais dos quais elas dependem”, conclui o relatório, que insta todos os setores a fazerem mais para combater as mudanças climáticas.

Fontes: DW, Estadão, O Globo.

Foto: picture-alliance/Zumapress/H. Amezcua,

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