Poucas ideias sobreviveram tanto tempo na Amazônia quanto a de que é preciso derrubar floresta para gerar desenvolvimento. Ela aparece em diferentes versões. Às vezes, vem embalada como expansão da fronteira agropecuária. Em outras, como abertura de estradas, ocupação territorial ou crescimento econômico. Mas a promessa é sempre a mesma: primeiro vem o desmatamento, depois vem a prosperidade. O problema é que os dados mostram exatamente o contrário.
Dados do Índice de Progresso Social (IPS) Brasil 2026, que avalia a qualidade de vida nos 5.570 municípios brasileiros a partir de 57 indicadores sociais e ambientais, desmontam uma das principais justificativas históricas para a destruição da floresta. Pois, os municípios que mais desmataram a Amazônia nos últimos três anos estão longe de ser exemplos de desenvolvimento. Na verdade, estão entre os piores lugares do país para viver.
Dos 20 municípios que mais desmataram a Amazônia entre 2023 e 2025, nenhum aparece sequer entre a metade superior do ranking nacional do IPS Brasil 2026. O “melhor” deles é Porto Velho (RO), que ocupa apenas a 3.718ª posição entre os 5.570 municípios avaliados. Vale ainda ressaltar que a capital de Rondônia também foi classificada como a pior capital para se viver, conforme o índice.
Os quatro maiores desmatadores da Amazônia estão todos entre os 400 piores municípios do Brasil em qualidade de vida. São Félix do Xingu (PA), líder absoluto em desmatamento recente, ocupa a 5.558ª posição nacional. Altamira (PA), segunda colocada em desmatamento, aparece na 5.454ª posição. Apuí (AM), terceiro maior desmatador, está em 5.518º lugar. Portel (PA), sétimo colocado em desmatamento, ocupa a posição 5.567, a quarta pior do Brasil no ranking do IPS (Índice de Progresso Social) , que avalia a qualidade de vida dos municípios brasileiros.
Esses números deveriam provocar uma reflexão profunda sobre a narrativa que dominou boa parte do debate amazônico nas últimas décadas. Se o desmatamento fosse, de fato, um caminho para o desenvolvimento, seria razoável esperar que os municípios que mais converteram floresta em pasto e outras atividades apresentassem bons resultados em educação, saúde, saneamento, segurança e oportunidades.
Contudo, o que vemos é uma espécie de paradoxo amazônico: municípios que geram riqueza por meio da destruição das florestas continuam incapazes de transformá-la em qualidade de vida para sua população.
E aqui está um detalhe importante. O IPS não mede riqueza. Não mede arrecadação. Não mede PIB. O índice foi criado justamente para responder se a riqueza produzida em um território está se traduzindo em melhores condições de vida para as pessoas. Por isso, seus indicadores observam resultados concretos. Cobertura vacinal. Mortalidade infantil. Acesso à água tratada. Saneamento. Qualidade da moradia. Segurança. Educação. Inclusão social. Meio ambiente. Oportunidades. Em resumo, o IPS mede aquilo que realmente importa para quem vive nos municípios.
E os resultados sugerem que o desmatamento pode até movimentar a economia, mas está longe de garantir progresso social.
O caso de São Félix do Xingu é emblemático. O município abriga um dos maiores rebanhos bovinos do país e ocupa posição central na expansão da fronteira agropecuária amazônica. Ainda assim, figura entre os últimos colocados do Brasil em qualidade de vida. O mesmo padrão aparece em Altamira, Itaituba, Novo Progresso, Pacajá, Uruará, Colniza, Nova Maringá e tantos outros municípios associados à dinâmica recente de abertura de áreas e avanço do desmatamento.
Dos 20 maiores desmatadores da Amazônia, oito estão no Pará, seis no Amazonas, cinco em Mato Grosso e um em Rondônia. A maioria está concentrada justamente nas regiões que simbolizam a expansão recente da fronteira econômica amazônica. E, ainda assim, quase todos aparecem nas últimas posições do ranking nacional de progresso social.
Durante muito tempo, o debate foi apresentado como uma escolha entre floresta e desenvolvimento. Como se preservar ou conservar significasse permanecer pobre e desmatar fosse uma etapa inevitável rumo à prosperidade. Mas, ao que tudo indica, essa dicotomia é falsa. A evidência disponível não sugere que a floresta esteja impedindo o desenvolvimento. O que ela mostra é que o desmatamento não está produzindo o desenvolvimento prometido.
Talvez seja hora de abandonar a ideia de que a Amazônia precisa escolher entre conservar ou prosperar. Os dados indicam que o verdadeiro desafio é outro: encontrar formas de gerar prosperidade mantendo a floresta em pé. Porque, até aqui, a conta do desmatamento parece bastante clara. A floresta perdeu. E a população também.
Fonte: Um Só Planeta.
Foto: Getty Images.


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