Praias: Uma Morte Anunciada

Em um contexto de mudanças climáticas, sabe-se que as regiões costeiras serão as primeiras afetadas com o aumento no nível dos oceanos.

O Brasil tem cerca de 7.500 quilômetros de litoral, entre praias, falésias, dunas, mangues, restingas e muitas outras formações. Mais da metade disso, no entanto, está sendo progressivamente destruída pela erosão, e agravada pela ação humana.

Entre eles, a pressão imobiliária e a multiplicação de empreendimentos salineiros ou para produção de espécies aquáticas em cativeiro, além da expansão de espécies vegetais invasoras.

O Rio de Janeiro foi o estado que mais perdeu superfície de dunas, praias e areais, 49% do que tinha em 1985, o equivalente à área de 665 Maracanãs. A preservação desses locais é importante para o controle da erosão costeira e a biodiversidade da faixa litorânea, mas apenas 40% das áreas no Brasil estão protegidas por alguma Unidade de Conservação.

Juntos, esses problemas atingem hoje cerca de 60% do litoral brasileiro, segundo o livro “Panorama da Erosão Costeira no Brasil”, publicado em novembro pelo Programa de Geologia e Geofísica Marinha, que reúne 27 universidades e instituições de pesquisa.

Isso significa que hoje 4.500 km de litoral são afetados pela erosão. Isso é um aumento de 50% em relação à primeira edição do levantamento, em 2003, quando cerca de 3.000 km do litoral eram afetados.

O mar corroeu a encosta que sustenta o farol da Ponta do Seixas, o ponto mais oriental do Brasil, em João Pessoa, na Paraíba. Em 2014, um trecho da estrada que conduzia ao farol desmoronou. Dois anos depois, a estrada fechada inicialmente apenas para carros foi interditada também para pedestres e ciclistas. Quem chega à Ponta do Seixas, agora por uma estrada mais longa, pode ver, à frente, uma bela vista do Atlântico, e à esquerda, a antiga estrada caída e uma placa alertando sobre o risco de desmoronamento.

Além de tragar vias costeiras, os efeitos da erosão no litoral brasileiro se manifestam de múltiplas formas. Barrancos e crateras cortam a praia; rochas, antes cobertas pelo mar, vêm à tona. Casas desmoronam ou expõem alicerces. Palmeiras tombam e revelam suas raízes em razão da perda de sustentação.

O impacto é maior nas regiões Norte e Nordeste, com 60% a 65% do litoral atingido pela erosão, segundo o relatório Panorama da Erosão Costeira no Brasil. O Pará se destaca no levantamento, com a erosão remoldando 60% e a progradação 30% de seus 562 km de litoral.

Na ilha de Marajó, enquanto a linha de costa, o limite até onde o mar chega, cujo deslocamento indica o estado de preservação ou alteração das praias,  em algumas  avançou até 100 m, por causa do acúmulo de sedimentos, a de outras, pela razão contrária, recuou até 80 m. Na Bahia, 20% de seus 932 km de litoral são atingidos pela erosão. Em Sergipe, a perda de sedimentos modificou 38% dos 163 km de praias.

No Espírito Santo, o problema é a progradação, verificada em 35% de seu litoral. No delta do rio Parnaíba, entre o Maranhão e o Piauí, a erosão desenterrou manguezais antes cobertos pela areia. No Rio Grande do Norte, 60% dos 399 km da costa já foram também atingidos pela erosão. O Ceará, com 572 km de litoral, registrou 30% de erosão e 10% de progradação.

Essas regiões, Norte e Nordeste, são as mais atingidas por causa da baixa declividade das praias, que facilita o avanço do mar e das marés mais intensas, entre outros fatores. No Nordeste, houve um agravante: a seca prolongada no sertão nos últimos anos. Com menos água, os rios levaram menos areia para o litoral, enquanto o mar continuou arrastando o sedimento já depositado nas praias.

Nas regiões Sudeste e Sul, o impacto da erosão e da progradação é da ordem de 15%, mas a situação não é tranquilizadora, ressalta o geógrafo Dieter Muehe, pesquisador da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e coordenador dos dois levantamentos.

As análises de campo e as imagens de satélite indicaram que 38% do litoral do Rio de Janeiro, o equivalente a 242 km, e 12% do de São Paulo, ou 75 km, apresentam tendência erosiva, mas sem recuo da linha de costa. “A largura da praia continua a mesma, mas a erosão está interferindo nas dunas, falésias e casas próximas em algumas regiões”, diz ele. “São áreas muito vulneráveis, e talvez esse fenômeno fique mais aparente nos próximos anos.”

Mesmo sendo um dos locais com mais extensos cordões arenosos, o Rio Grande do Sul perdeu 28% das áreas de dunas, praias e areais de 1985 a 2020. Entre os casos de ocupação por usos da terra no estado, há o avanço dos pinheiros sobre campos dunares em áreas que fazem limite com florestas plantadas. Em 36 anos, 6,3 mil hectares de praias e dunas viraram silvicultura.

Algumas cidades costeiras estão sendo engolidas pelo Oceano Atlântico, como é o caso do distrito de Atafona, localizado no município de São João da Barra, no litoral Norte do Rio de Janeiro. Em 36 anos, metade das praias, dunas e areais da região desapareceram. Especialistas afirmam que algumas das causas da erosão costeira na região são as ações humanas e os efeitos das mudanças climáticas.

O problema altera a linha da costa e gera danos econômicos e sociais. Se a erosão for muito grande, a água do mar pode acabar entrando pelos estuários e contaminando o lençol freático, fazendo com que ele se salinize. As mudanças também afetam a vida marinha e de animais como pássaros e tartarugas.

O que afeta mais é a interferência local na paisagem, a ocupação cada vez maior da faixa costeira. Os primeiros sinais registrados de erosão costeira em Pernambuco, por exemplo, são do início do século 20, quando a ampliação do porto do Recife afetou a orla de Olinda.

Fenômeno originalmente natural, a erosão é um problema mundial. A região mais atingida é a costa do mar Cáspio, com uma média de 600 m de perda de praia em alguns pontos e de 700 m de ganho em outros. O litoral de países da Ásia, América do Sul, leste da África e oeste da Austrália apresentou uma média de erosão acima de 50 m, de acordo com um estudo publicado em agosto de 2008 na Scientific Reports.

Como em outros países, a variação do volume de sedimentos no Brasil se mostrou mais intensa em áreas mais urbanizadas, com portos, tubulações de esgotos avançando para o mar ou com casas e hotéis construídos na beira da praia. “As obras interrompem o fluxo de sedimentos e fazem as praias engordar de um lado, enquanto as do outro lado perdem areia”, diz Muehe.

A movimentação de sedimentos pode se agravar com a elevação do nível do mar prevista para as próximas décadas e o aumento da frequência e da intensidade de chuvas e ciclones, como resultado das mudanças climáticas, alertam os especialistas que participaram desse levantamento.

Fontes: Revista Pesquisa, National Geographic,  Yumpo, ABES, Cetesb, Mapbiomas, IBGE, Revista Piaui.