O ar-condicionado mais eficiente das cidades não está nos edifícios. Está nas calçadas — ou melhor, no que cresce dentro delas.
Um estudo inédito publicado na revista Nature Communications, liderado pela The Nature Conservancy (TNC), revelou que as árvores urbanas são responsáveis por mitigar quase metade do efeito de ilha de calor nas cidades: sem elas, as temperaturas nas áreas urbanas seriam duas vezes mais altas do que são hoje.
A pesquisa analisou dados de quase 9.000 grandes cidades ao redor do mundo, que juntas abrigam cerca de 3,6 bilhões de pessoas. O resultado é que a cobertura arbórea atual neutraliza aproximadamente 48,6% do chamado efeito de ilha de calor urbana — fenômeno que ocorre quando superfícies artificiais como asfalto, concreto e estacionamentos absorvem e liberam calor, fazendo com que áreas urbanas aqueçam muito mais do que as regiões rurais ao redor.
Mais de 200 milhões de moradores urbanos no mundo vivem em bairros onde as árvores já reduzem a temperatura do ar em pelo menos 0,5°C. O número parece pequeno isolado, mas quando extrapolado para milhares de cidades e bilhões de pessoas — em um cenário de temperaturas globais cada vez mais extremas — representa uma diferença concreta entre conforto e risco à saúde.
O resfriamento está no lugar errado
O estudo traz um dado que deveria preocupar gestores públicos e empresas com compromissos ESG: o efeito refrescante das árvores está concentrado justamente onde a necessidade é menor. Países de alta renda, climas úmidos e bairros suburbanos concentram a maior parte da cobertura arbórea urbana — enquanto as comunidades mais vulneráveis, em regiões densamente povoadas e de baixa renda, ficam com menos sombra e mais calor.
“É cada vez mais comum vermos diferenças gritantes de temperatura entre bairros da mesma cidade, causadas pela quantidade desigual de cobertura arbórea”, afirmou Johnny Quispe, diretor de programas urbanos da TNC. “Os impactos do calor extremo costumam afetar as comunidades mais vulneráveis. Investir em arborização urbana resulta em ruas mais frescas, ar mais limpo e comunidades mais resilientes para todos.”
São Paulo é um exemplo do estrago causado pela falta de árvores. Segundo pesquisadores da USP, as temperaturas mínimas e máximas do ar na cidade aumentaram muito acima da média global ao longo dos últimos 125 anos.Enquanto a temperatura média do planeta subiu cerca de 1,2°C desde 1900, a capital paulista registrou aumento de 2,4°C nas máximas diárias e de 2,8°C nas mínimas, detalha o g1. E o principal motivo da discrepância é a ilha de calor urbana.
Os pesquisadores verificaram que o aumento da temperatura mínima, normalmente registrada por volta das 6h, foi ainda maior do que o da temperatura máxima. Isso significa que as noites ficaram mais quentes ao longo das últimas décadas.
Nos últimos 15 anos, as ondas de calor passaram a provocar tardes com temperaturas entre 30°C e 34°C em diferentes pontos da Grande São Paulo. À noite, por volta das 22h, os termômetros ainda marcam 28°C.
“Esse dado é muito crítico, porque é nesse horário que a maioria das pessoas vai dormir”, afirma o professor Humberto Ribeiro da Rocha, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG-USP). Rocha apresentou os dados no encontro “Eventos extremos de calor e água: Mitigando os efeitos adversos das mudanças climáticas na saúde das cidades”, promovido pela FAPESP e pela Organização Neerlandesa para a Pesquisa Científica (NWO).
Segundo ele, muitas construções paulistanas não possuem isolamento térmico suficiente para impedir o acúmulo de calor. “Várias edificações não tinham isolamento térmico suficiente contra o calor externo e, à noite, se comportaram como pequenos fornos aquecidos que retiveram o calor”, compara.
Voltando ao estudo liderado pela TNC, o levantamento traz um dado preocupante, que escancara a injustiça climática: o efeito refrescante das árvores está concentrado justamente onde a necessidade é menor. Países de alta renda, climas úmidos e bairros nobres concentram a maior parte da cobertura arbórea urbana, enquanto as comunidades mais vulneráveis, em regiões densamente povoadas e de baixa renda, têm menos sombra e mais calor.
“É cada vez mais comum vermos diferenças gritantes de temperatura entre bairros da mesma cidade, causadas pela desigual distribuição de cobertura arbórea”, afirmou Johnny Quispe, diretor de programas urbanos da TNC. “Os impactos do calor extremo costumam afetar as comunidades mais vulneráveis. Investir em arborização urbana resulta em ruas mais frescas, ar mais limpo e comunidades mais resilientes para todos.”
O que isso significa para 2050
A pesquisa também traz um alerta sobre os limites dessa solução natural. A cobertura arbórea atual e futura será capaz de mitigar apenas entre 9% e 10% do aumento de temperatura projetado pelas mudanças climáticas até 2050. Mesmo no cenário de plantio mais ambicioso possível, esse percentual sobe para cerca de 20% — o que significa que 80% do aquecimento previsto não será compensado por árvores.
“Embora expandir a cobertura arbórea seja essencial para a adaptação ao aumento das temperaturas, nosso estudo sugere que as árvores por si só não serão suficientes”, disse Rob McDonald, cientista-chefe global da TNC. “A humanidade precisará usar múltiplas estratégias para se adaptar a um mundo mais quente, e precisamos desesperadamente reduzir a poluição por gases de efeito estufa para evitar temperaturas catastróficas.”
Fontes: Climainfo, Exame.
Foto: Leandro Fonseca/Exame.


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