635 aves se chocaram com aviões apenas neste ano no Brasil

A colisão de um pássaro com um avião da Latam após a decolagem do Aeroporto do Galeão, no Rio, na semana passada, foi um incidente aéreo cada vez mais comum no Brasil. Conhecido no setor como bird strike, o número de casos reportados no país triplicou em pouco mais de uma década, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Só neste ano, já foram 635 choques, depois de 3.461 no ano passado. Especialistas ouvidos pelo GLOBO relacionam o crescimento de registros com o aumento do tráfego aéreo e a adaptação das aves ao ambiente dos aeroportos.

No domingo, houve mais um caso: um avião da Gol que saiu do aeroporto de Brasília rumo a Congonhas precisou voltar à origem após um bird strike. A companhia aérea informou que todos os passageiros foram reacomodados.

Se em 2011, o número de colisões foi 1.381, o valor chegou a 4.329 ocorrências em 2023, ano com maior quantidade de registros na série histórica. Mas o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) diz que um alto número de incidentes não indica maior insegurança, e sim “uma cultura consolidada de notificação — essencial para o aprimoramento das estratégias de gerenciamento de riscos”.

O Cenipa também ressalva que os riscos variam conforme características locais como vegetação e densidade populacional. O centro estimou em 2021 que colisões com animais selvagens custem anualmente à indústria da aviação brasileira perdas em média US$ 7,5 milhões (R$ 43 milhões).

A Anac impõe medidas para tentar evitar os incidentes, como controle dos focos de atração de fauna na área do aeroporto e barreiras para impedir animais nas áreas de operações.

— As colisões com aves acontecem desde quando a aviação passou a existir e podem ser combatidas com muita ciência. A maioria dos casos acontece com a aeronave em baixa altura, na decolagem ou na aterrissagem, quando há mais chance de contato. Os animais passaram a ter uma maior adaptação ao ambiente do aeroporto, que tem muita grama e nutrientes para eles — aponta Maurício Pontes, assessor executivo e investigador de acidentes da Associação Brasileira de Pilotos da Aviação Civil (Abrapac).

Dados da Anac mostram que o Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, registrou o maior número de colisões com aves nos últimos 15 anos (2.119). O aeroporto informou que mantém ações para diminuir o risco com a fauna, como retirada de ovos, ninhos e animais, controle de vegetação e remoção de poleiros e abrigos. Em seguida, aparecem na lista os aeroportos de Porto Alegre (2.075), de Brasília (1.914), de Salvador (1.430) e de Viracopos, em Campinas (1.382).

Um estudo do pesquisador brasileiro Flavio Antonio Coimbra Mendonça, da universidade aeronáutica Embry-Riddle, em Daytona Beach (EUA), com acadêmicos das universidades americanas Purdue e de Nebraska Omaha, mostra que a maioria dos casos no Brasil (67%), entre 2020 e 2022, envolveram animais de médio porte (com peso entre 251g e 750g). A pesquisa também aponta que 93% dos choques foram na área do aeroporto.

— O aumento do número de operações aéreas é um possível motivo para o crescimento de colisões, além do fato de que aviões mais modernos são mais silenciosos, o que faz com que as aves possam não perceber a aproximação — aponta Coimbra.

Milagre no Rio Hudson

O crescimento do número de relatos de colisões pelas companhias aéreas também é um dos motivos para a elevação ano a ano. Para Joselito Paulo, diretor presidente da Associação Brasileira de Segurança da Aviação (Abravoo), houve uma escalada no número de informes no Brasil a partir de uma colisão com um pássaro em Nova York em 2009 que culminou com um pouso de emergência no Rio Hudson.

— O milagre no Rio Hudson repercutiu muito. Associado a isso, os aeroportos passaram a contratar biólogos para verificar o risco com a fauna — avalia Paulo.

O incidente no Rio de Janeiro na quinta-feira assustou os passageiros do voo LA3367, que ia para Guarulhos. A tripulação foi surpreendida quando o piloto anunciou que retornaria ao Galeão pouco depois da decolagem, porque o choque com o pássaro abriu um grande buraco no nariz da fuselagem. O voo durou apenas 14 minutos.

No mesmo dia do incidente, o CEO da Latam no Brasil, Jerome Cadier reclamou, em um texto na rede social LinkedIn, de ações judiciais que podem ser abertas a partir do acidente: “A aeronave voltou em segurança, mas obviamente o voo foi cancelado, atrapalhando a vida de todos os passageiros, e obviamente da companhia aérea também. Posso apostar que a primeira ação contra a companhia aérea, pedindo indenização por dano moral por cancelamento deste voo, vai chegar amanhã mesmo. A pergunta é: quem paga a conta?”, questionou.

O CEO da Azul, John Rodgerson, é favorável que os operadores dos aeroportos dividam com as companhias aéreas os custos com esse tipo de ocorrência. Em julho, um jato da Azul teve a decolagem interrompida após colidir com um pássaro no Aeroporto Internacional de Belo Horizonte. Os passageiros foram acomodados em outro avião.

— Quem banca esse custo somos nós e os passageiros. Os operadores dos aeroportos, não. Uma frustração que nossa indústria tem é que temos de lidar com coisas fora do nosso controle. Nós queremos mais investimentos para os aeroportos, mais investimento para tirar lixo de perto dos aeroportos e deixá-los mais seguros — disse Rodgerson a jornalistas anteontem.

Para Coimbra, que atuou na FAB por 30 anos, é possível acionar a operadora por danos causados por um choque com uma ave, se houver evidências de que não foram tomados os cuidados necessários no aeroporto.

— Tanto a companhia quanto o passageiro pode processar. Há precedente nos Estados Unidos — aconselha o pesquisador.

Desde 1988, as colisões com aves causaram 262 mortes humanas e destruíram 250 aeronaves em todo o mundo, de acordo com o Australian Aviation Wildlife Hazard Group (Aawhg), uma equipe criada pela aviação civil australiana. Mas estes números não incluem o acidente na Coreia do Sul em dezembro, que deixou 179 mortos e possivelmente foi causado pelo choque com aves.

Fonte: O Globo.

Foto: Reprodução.