Até os Cactos são ameaçados pela Mudança Climática

O resistente cacto, que aprecia calor e aridez e é adaptado a terrenos rudes, pode não parecer uma possível vítima da mudança climática. No entanto, mesmo ele pode estar perto de atingir seus limites, se o planeta ficar mais quente e seco nas próximas décadas, como aponta pesquisa publicada na quinta-feira (14). O estudo avalia que em meados do século o aquecimento global poderá colocar 60% das espécies de cactos em maior risco de extinção.

Essa previsão não leva em conta a extração ilegal, a destruição do habitat e outras ameaças causadas pelo homem, que já fazem dos cactos um dos grupos de organismos mais ameaçados do mundo.

Para aqueles que pensam neles como mestres da resistência a todos os climas ou como plantas domésticas interessantes e de fácil manutenção, a enorme variedade que apresentam pode ser um choque. Para começar, nem todos  habitam o deserto. Alguns vivem em florestas tropicais ou em climas frios, em grandes altitudes. Há os que armazenam pouca água em seus caules, contando com água da chuva e orvalho.

E outros que ocupam ambientes altamente específicos: falésias calcárias no México; colinas de granito rosa no Brasil; também no Brasil, na Amazônia, o cacto flor-da-lua gira em torno de um tronco de árvore, bem acima do solo.

Em parte, é esse gosto definido por ambientes específicos que torna certos cactos vulneráveis não apenas às mudanças climáticas, mas também a ameaças de todos os tipos.

“Se ele for encontrado só numa área muito pequena, e alguém vier e lavrar para plantar qualquer coisa, toda a população desaparecerá”, falou Barbara Goettsch, outra autora do novo estudo e presidente do Grupo de Especialistas em Plantas Suculentas e Cactos da União Internacional para a Conservação da Natureza. O estudo analisa 408 espécies de cactos, ou cerca de um quarto de todas as espécies conhecidas, e como seu alcance geográfico pode mudar de três maneiras diferentes pelo aquecimento global neste século.

Em geral, espera-se que 60% das espécies de cactos sofram declínios de qualquer magnitude, segundo o estudo, e 14% podem sofrer declínios acentuados. Apenas uma espécie, o xiquexique, no Brasil, tende a apresentar um alcance substancialmente maior.

De acordo com o estudo, os lugares onde o maior número de espécies podem se tornar ameaçadas são geralmente aqueles com a maior diversidade de espécies hoje, incluindo a Flórida, centro do México e grandes áreas do Brasil. Cactos que vivem em árvores parecem se sair especialmente mal, talvez porque suas vidas estejam tão entrelaçadas com as de outras plantas.

As previsões do estudo também não levam em conta eventos extremos, como secas e incêndios florestais.

“É uma imagem popular de cactos”, disse David Williams, professor de botânica na Universidade de Wyoming, que não participou da nova pesquisa. “Ah, não precisamos nos preocupar com os cactos. Vejam, eles têm espinhos, crescem neste ambiente terrível.”

Mas os cactos, como a maioria das plantas, existem em delicado equilíbrio com os ecossistemas ao seu redor, disse ele. E afirma ainda: “Há muitos desses pontos de inflexão, limites e interações que são muito frágeis e reagentes a mudanças no meio ambiente, uso da terra e mudanças climáticas.” Segundo ele, o novo estudo é fundamental por mostrar quão amplamente essas mudanças podem afetar as comunidades de cactos.

Goettsch diz que quando estava preparando uma avaliação global abrangente sobre as ameaças aos cactos, cerca de uma década atrás, apenas alguns estudos científicos haviam analisado os impactos potenciais das mudanças climáticas especificamente nos cactos.

Mas outros especialistas nessas plantas continuavam dizendo a ela durante suas visitas de campo: “Você sabe, voltamos agora e muitas plantas estão mortas. Não há nenhuma razão real, então achamos que pode ser a mudança climática.” As evidências só se acumularam desde então, informa.

O Brasil é um ponto alto para a diversidade de cactos. À medida que as terras semiáridas do Nordeste do país experimentam temperaturas mais quentes, secas mais intensas e desertificação, essa riqueza vegetal está em risco, disse Arnóbio de Mendonça, pesquisador de clima e biodiversidade no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais no Brasil, que não trabalhou no novo estudo.

“Ou as espécies se adaptam ou serão extintas”, disse ele. “Como a adaptação é um processo lento e as mudanças climáticas atuais estão ocorrendo rapidamente, é provável que muitas espécies se percam.”

Fonte: New York Times

Um comentário

  1. Cleosmar Ribeiro Santos said:

    Gostaria de parabenizar a revista pela escolha dos temas, sempre atuais e de relevância. Proporcionando uma leitura agradavel e de facil compreensão.

    10/05/2022
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