A 1ª volta ao mundo: os 500 anos da viagem de Fernão de Magalhães

A busca por novos mercados, pela evangelização de povos ainda desconhecidos e a ampliação da atividade marítima marcaram o século XV como o início do período das Grandes Navegações. Invenções importantes, como a bússola, o astrolábio e a caravela, eram frutos dos investimentos realizados naquele momento, contribuindo para avanços nas expedições que propiciaram a descoberta de novas terras.

A primeira viagem de circum-navegação, ocorrida entre 1519 e 1522 pela expedição de Fernão de Magalhães e Juan Sebastián Elcano é reflexo desse cenário. A empreitada provou de uma vez por todas que a Terra é redonda, mas tanto o custo quanto os impactos envolvidos nisso foram gigantescos.

Mas antes de tudo, é importante lembrar que, naquele período, Portugal era uma das grandes potências marítimas, tendo obtido acesso a diversas especiarias por meio da exploração da costa atlântica da África e alcançando a parte sul do continente.

Contexto histórico

Após Bartolomeu Dias realizar a conquista do Cabo da Boa Esperança em 1488, Vasco da Gama chegou nas Índias dez anos depois. Visando delimitar as terras que seriam apossadas, o Tratado de Tordesilhas foi assinado em 1494 entre Espanha e Portugal. Os navegadores continuaram a seguir cada vez mais longe, resultando no “descobrimento” do Brasil em 1500.

A Espanha não apenas acompanhava todo esse progresso como também buscava se manter na disputa com a potência portuguesa. Foi com a expedição liderada, irônicamente, pelo português Fernão de Magalhães (1480–1521) a serviço do país que a história ganhou um novo capítulo com a primeira viagem de circum-navegação.

Mostrar que era possível utilizar outro caminho para atravessar os mares, alcançar as Índias e retornar à Espanha seria um desafio e tanto — mas Magalhães ainda nem desconfiava disso. A rota possuía o mesmo destino já explorado pelos navegadores, mas em vez de dar a volta no continente africano, seria necessário seguir pelo outro lado, para o Oeste, em direção à América.

No dia 20 de setembro de 1519, cinco navios com 250 homens deixaram o porto de Sanlúcar de Barrameda, no sul da Espanha, em direção ao Atlântico. No comando da nau Trinidad estava o capitão português Fernão de Magalhães.

Nem Magalhães ou mesmo seus homens sabiam que a expedição mudaria o curso da história: eles seriam os primeiros a dar a volta ao mundo, um marco que celebra seu quinto centenário.

Mas também foi considerado um feito real da resistência humana: a primeira circunavegação do mundo foi um verdadeiro inferno de doenças, fome e violência, relata o historiador Jerry Brotton na BBC History Magazine.

De fato, apenas 18 dos 250 tripulantes retornaram a Sanlúcar três anos depois de deixar o porto.

E embora muitos atribuam a Magalhães o crédito de ser a primeira pessoa a circunavegar a Terra, o português não está entre esses 18 sobreviventes.

Mas isso não tira o mérito de ser o explorador que idealizou e empreendeu essa dura e histórica jornada.

A ideia de Magalhães

O principal objetivo da viagem não era dar a volta ao mundo, mas alcançar as Ilhas Molucas (ou Ilhas das Especiarias), na Indonésia, e sua riqueza ao longo da rota oeste, que era o que Cristóvão Colombo pretendia quando encontrou o continente americano.

Portugal controlava a rota conhecida para o leste através do Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África.

Embora muitos nobres espanhóis suspeitassem de uma expedição sob o comando de um português, Carlos 1º aceitou a proposta de Magalhães.

Isso consistia em velejar pelo Cabo Hornos, atravessar até as Molucas, embarcar um carregamento de especiarias e retornar pela mesma rota, reivindicando as ilhas para a Espanha.

Dificuldades no caminho

A frota que saiu da Espanha contava com cerca de 250 homens. O caminho utilizado era desconhecido até então e os percalços começaram a aparecer: começando pela grande extensão da América do Sul. Fome, tempestades e a presença de escorbuto causaram terror nos tripulantes.

Após alcançar a costa brasileira, o objetivo era encontrar uma passagem que possibilitasse atravessar o continente antes que o inverno se fizesse presente. No entanto, essa expectativa não se concretizou, exigindo que a tripulação recuasse por um período.

Desentendimentos, acidentes e deserções também foram recorrentes na viagem, culminando com uma inesperada perda de parte da tropa. Na prática, isso não representava apenas uma equipe menor, mas também a redução do estoque de mantimentos.

Um oceano pacífico

A frota encontrou a passagem tão procurada apenas em 1520, no local hoje conhecido como Estreito de Magalhães, no extremo sul de onde hoje é a Argentina. Além disso, um feliz acaso foi o que deu nome ao oceano que abriga uma região de intensa atividade sísmica: foi nesta viagem que Fernão de Magalhães chamou de “Mar Pacífico” as águas situadas ao oeste da América.

Se Magalhães soubesse o quão agitadas essas águas são, o oceano certamente teria outro nome! Mas, claro, apesar disso, não faltou turbulência: a tripulação se deparou com a vastidão do oceano e precisou de mais três meses para chegar até as Ilhas Marianas, em 1521, para, em seguida, alcançar as Filipinas.

O contato com a população local não foi tão amigável quanto o esperado e Fernão de Magalhães acabou se envolvendo em uma disputa, o que culminou com a sua morte antes que pudesse completar seu objetivo e provar que a Terra era redonda. Em seu lugar, assumiu a liderança da expedição o espanhol Juan Sebastián Elcano. Dos cinco navios que partiram da Espanha, restaram apenas dois. Foi no ano de 1522 que Elcano, a bordo do navio Vitória, retornou à Espanha. Apenas 18 dos 250 homens que partiram no início da expedição resistiram à longa jornada.

Apesar da descoberta da rota, os perigos e o alto custo da viagem impediram que a Espanha a usasse para explorar o extremo oriente, deixando a região em domínio exclusivo português temporariamente. Os espanhóis só retornaram para lá em 1544 com a expedição de Ruy López Villalobos, desta vez partindo da costa oeste do México e evitando o gelado e traiçoeiro estreito no sul da América do Sul.

Fonte: BBC, Revista Galileu, Megacurioso.

Foto: Guillemard, F. H. H. (Francis Henry Hill), 1852-1933 Parr, Charles McKew donor Parr, Ruth, donor/Wikimedia Commons.

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