A cidade vegana e ambientalista processada pelo McDonald’s

No sudoeste da Alemanha, aninhada entre os Alpes da região da Suábia e o densamente arborizado parque natural Schönbuch, está Tübingen, uma cidade universitária que deixaria a maioria dos cenários da Disney no chinelo.

A cidade é construída em torno do centro histórico quase perfeitamente preservado, com suas ruelas de paralelepípedos, casas antigas de madeira e canais ondulantes. O rio Neckar corre pelo centro da cidade, formando uma pequena ilha — Neckarinsel —, que fica coberta de flores na primavera e resplandece dourada no outono.

Tübingen fica na Suábia, uma região alemã famosa por sua frugalidade e que também é um dos pontos mais ensolarados do país, tornando-a consideravelmente mais alegre do que outras partes que apresentam um clima mais nebuloso e chuvoso.

A cidade parece um conto de fadas, com sua paisagem idílica e atmosfera jovem — dos 90 mil moradores, mais de 27 mil são estudantes da Universidade de Tübingen.

Não é só isso, no entanto, que caracteriza Tübingen: é também uma cidade inovadora, verde e permite a existência de estilos de vida alternativos.

Para contextualizar a singularidade da cidade, Tübingen foi um dos centros dos protestos estudantis alemães de 1968, que ocorreram em toda a Alemanha Ocidental contra o tradicionalismo e a autoridade, o que influenciou a sensibilidade esquerdista e ambientalista da cidade.

Perguntar se uma pessoa é vegetariana ou vegana, e é tão comum perguntar se alguém come carne quanto perguntar se tem alergia.

Tübingen é, inclusive, um dos participantes oficiais do Veganuary, o desafio anual que incentiva as pessoas a serem veganas no mês de janeiro.

“Nossa oferta vegetariana do dia se esgota muito mais rápido do que a oferta de carne”, conta Alok Damodaran, que administra um food truck do sul da Índia na cidade.

Isso é significativo em um país que é conhecido por sua salsicha.

A cidade é conhecida por ser inovadora e verde, com moradias modernas projetadas para serem energeticamente eficientes

“As pessoas são tão solidárias porque se trata de uma iniciativa local e apreciam especialmente que a gente entregue em um carro elétrico”.

Ciclovias amplas e bem integradas, junto a tarifas altas de estacionamento, tornam a cidade bastante hostil para carros.

Um decreto aprovado em fevereiro de 2022 declarou que os carros não vão poder circular mais na rua central da cidade, que será reservada para ônibus e bicicletas.

Tübingen tem um gasto per capita três vezes maior em infraestrutura para bicicletas do que Copenhague, na Dinamarca, de acordo com Boris Palmer, prefeito da cidade.

E, no início de 2022, Tübingen tentou elevar ainda mais o status verde da cidade, impondo uma nova taxa — e se tornando a primeira cidade na Alemanha a implementá-la.

O chamado Verpackungssteuer (imposto de embalagem) previa um pagamento extra de cinquenta centavos para qualquer embalagem descartável, como copos de café, potes de sorvete e pratos para refeição. No caso de talheres descartáveis ​​— como garfos, facas e colheres —, o custo era de vinte centavos a mais.

Até as caixas de pizza e o papel alumínio usado para embalar um falafel para viagem eram tributados.

Independentemente de serem feitos de material sustentável ou reciclado, qualquer coisa de uso único era mais cara, com base no princípio de que a não produção era melhor do que a reciclagem ou descarte futuros.

O imposto teve um início promissor: as primeiras semanas resultaram em até 15% menos resíduos nas lixeiras da cidade.

Inicialmente, tanto os moradores quanto as empresas de Tübingen se mostraram à altura do desafio.

As pessoas começaram a adquirir o hábito de levar seus próprios talheres, e os restaurantes começaram a fornecer pratos reutilizáveis.

Mas a regra não foi bem recebida pelo único McDonald’s de Tübingen, que processou a cidade por causa do imposto.

Com mais de 1,5 mil restaurantes em todo o país, o McDonald’s afirma que é difícil customizar soluções e defende uma estrutura uniforme, no lugar das diferentes regras entre as cidades.

“Concordamos que a melhor embalagem é aquela que não é produzida em primeiro lugar. Mas os caminhos especiais locais de cidades ou comunidades individuais impedem um conceito nacionalmente bem sucedido e implementável”, afirmou um porta-voz da empresa, à medida que a companhia realiza testes para um sistema próprio de embalagens reutilizáveis.

O caso foi julgado em março, e o McDonald’s saiu vitorioso — mas cabe recurso.

“Acreditamos que uma cidade tem o direito de criar tal imposto, e até mesmo uma grande empresa tem que aceitar isso. Não consigo acreditar por que uma empresa internacional não pode mudar para reutilizáveis ​​se todas as pequenas empresas podem fazer isso”, afirmou Palmer, antes do caso ser julgado.

Nomeado prefeito em 2007, ele é considerado por muitos como responsável por moldar as políticas verdes de Tübingen, como os sistemas solares fotovoltaicos obrigatórios nos telhados e os ônibus gratuitos aos sábados.

“Vimos uma redução na emissão de dióxido de carbono per capita em 40% nos últimos 15 anos, enquanto a economia de Tübingen cresceu 40%”, diz ele.

“Isso nos dá esperança de que pode haver uma maneira de superar o aquecimento global e continuar crescendo.”

Embora muitas lições possam ser aprendidas com o modelo de Tübingen, talvez seja difícil reproduzir as conquistas da cidade, uma vez que elas emergem de um cenário único de apoio político e social.

Alguns receiam que Tübingen corre o risco de ir longe demais: um artigo da Spiegel de 2011 descreveu o French Quarters, um dos bairros mais verdes da cidade — e do país — como um “inferno verde”, apresentando seus moradores como intolerantes e hipocritamente sustentáveis.

Além disso, muitos acham que Tübingen é acadêmica demais para ser considerada um exemplo do mundo real.

“Você vai ficar muito na bolha acadêmica se morar lá”, diz Kathi Winkler, que viveu em Tübingen por vários anos antes de se mudar para Berlim.

No entanto, o exemplo de Tübingen mostra que abrir caminho para um planeta mais verde pode ser alcançado em pequena escala, provando que o pequeno pode ser poderoso, bonito e inspirador.

Fonte: BBC Travel.

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