Aquecimento global de 1,5°C pode levar até 14% das espécies à extinção

Com um olho ainda na pandemia histórica e a alma se encolhendo com a guerra aberta no coração da Europa, é difícil voltar a atenção para a crise climática em que a humanidade se colocou e ao planeta. Mas os alertas sobre esse problema, que ficará como legado para as gerações futuras são cada vez mais contundentes e não se referem apenas ao amanhã, mas também ao que já aconteceu. “A evidência científica acumulada é inequívoca: a mudança climática é uma ameaça ao bem-estar humano e à saúde planetária”.

Não é qualquer um que alerta, é a conclusão do grupo de 270 cientistas de 67 países que revisaram mais de 34 mil artigos para a ONU lançar as bases sobre os impactos que o aquecimento já está causando. Um fenômeno que neste momento não pode ser revertido e cujas consequências negativas se multiplicam devido ao atual modelo de “desenvolvimento insustentável”.

Os especialistas do IPCC, instituição criada sob o guarda-chuva da ONU em 1988, confessam oito anos após a última grande revisão que ficaram aquém de suas previsões: “O alcance e a magnitude dos impactos das mudanças climáticas são maiores do que o esperado. Estimado em avaliações anteriores”. Além disso, eles observam que “algumas perdas já são irreversíveis”, como as primeiras extinções de espécies que estão ocorrendo devido ao aquecimento. “Outros impactos estão próximos da irreversibilidade”, acrescenta o relatório, referindo-se ao recuo das geleiras, às mudanças nos ecossistemas das montanhas e à perda do permafrost (solos permanentemente congelados nas regiões árticas).

O relatório analisa os impactos já produzidos por setores e áreas geográficas. Salienta, por exemplo, que a segurança alimentar e o acesso à água doce foram reduzidos pelo aumento dos eventos climáticos extremos. “O rendimento das lavouras de arroz, milho e trigo caiu 5%”, explica Rivera-Ferre. Esse tipo de dano expõe milhões de pessoas à desnutrição, alerta o IPCC. Além disso, foi detectado um aumento de doenças e uma deterioração da saúde mental ligada ao aquecimento global.

“Já vi muitos relatórios científicos em minha vida, mas nada parecido com isso”, disse António Guterres, secretário-geral da ONU, que definiu o estudo do IPCC como “um atlas do sofrimento humano”

Em um cenário próximo do atual, o aquecimento global de 1,5°C pode levar 9% a 14% das espécies de todos os ecossistemas a um risco muito alto de extinção. O planeta já aqueceu 1,1°C. Em um cenário de 2°C de aquecimento médio global, o risco de extinção sobre para a faixa de 10% a 18%, chegando ao máximo de 48% em um cenário de 5°C.

Os grupos sob maior risco são os invertebrados e os polinizadores, seguidos de anfíbios e plantas com flores, o relatório observa que até mesmo a mínima taxa de extinção prevista –9% é mil vezes maior que o ritmo natural.

Desde o último relatório do tipo lançado pelo IPCC, em 2014, a cobertura geográfica das pesquisas foi ampliada, assim como os modelos climáticos usados nas projeções de cenários.

“Uma coisa que nos surpreendeu é que diversos hotspots [áreas prioritárias] no Brasil, na Amazônia, Mata Atlântica e no Cerrado, estão entre os mais bem estudados do mundo em termos dos impactos projetados das mudanças climáticas”, afirma Mariana Vale, pesquisadora da UFRJ e uma das autoras do relatório do IPCC.”Desde a última edição do relatório, em 2014, houve uma geração de conhecimento muito grande. Mas ainda há carência de estudos na Caatinga, Pantanal e Pampas”, ela aponta.

No caso de espécies endêmicas em áreas prioritárias de conservação da biodiversidade, o risco de extinção pode dobrar no cenário de aquecimento entre 1,5°C e 2°C e aumentar pelo menos dez vezes se o aquecimento saltar para 3°C, segundo o relatório. Dano irreversível à biodiversidade, a extinção de espécies desencadeia uma série de impactos aos ecossistemas e aos serviços ambientais que afetam a saúde humana.

“As espécies são a unidade fundamental dos ecossistemas e o aumento do risco para elas aumenta o risco para a integridade, funcionamento e resiliência do ecossistema”, afirma o relatório. A perda de biodiversidade e a degradação ambiental já são observadas em todas as regiões do planeta atualmente. As mudanças nos biomas e o risco de incêndios também aumentam com a elevação da temperatura.

De 976 espécies avaliadas em diversas regiões do mundo, 47% sofreram extinção de populações locais em anos de temperatura recorde. A maior parte da extinção de populações locais da biodiversidade aconteceu em regiões tropicais (55%), enquanto 39% aconteceu em regiões temperadas.

Os ambientes de água doce também tiveram maior desaparecimento de populações inteiras (74%). Os habitats marinhos sofreram perdas de 51% e os terrestres, de 46%. Metade das populações extintas foi de animais (50%), outros 39% das perdas foram de plantas.

“Proteger refúgios, por exemplo, onde os solos permanecem úmidos durante a seca ou o risco de incêndio é reduzido e, em alguns casos, criando microclimas mais frios, são medidas de adaptação promissoras”, conclui o estudo, embora ressalve que ainda há pouca literatura científica sobre a efetividade das medidas de adaptação climática para proteger ecossistemas.

“Evidências crescentes mostram que técnicas de adaptação baseadas em ecossistemas em áreas urbanas e rurais podem diminuir os riscos climáticos para as pessoas (em inundações, secas, incêndios e superaquecimento) e também ter benefícios para a biodiversidade e a proteção das florestas”, diz o relatório.

Uma das coisas que fica claro ao longo do estudo é que os impactos do aquecimento global não têm a ver apenas com o aumento das temperaturas e eventos extremos. “As condições socioeconômicas e a influência do modelo de crescimento os padrões atuais de desenvolvimento insustentável estão aumentando a exposição de ecossistemas e pessoas aos riscos climáticos”, afirma enfaticamente o relatório.

Além disso, acrescenta-se que nos últimos oito anos se acumularam evidências que indicam que “a degradação e destruição dos ecossistemas pelo homem aumenta a vulnerabilidade das pessoas” ao aquecimento e a problemas como o desmatamento ou a poluição.

Fontes: Folha SP, El País, Ecycle.

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