Com mais de 8 mil torres eólicas, NE sofre com danos ambientais silenciosos.

A instalação em grande escala de parques eólicos na região Nordeste se tornou motivo de preocupação para pesquisadores do tema, que dizem que o avanço do setor ao longo das últimas duas décadas ocorreu sem minimizar corretamente os danos ambientais. A coluna conversou com pesquisadores e leu estudos mais recentes, que revelam impactos como desmatamento e redução na movimentação de dunas e da recarga de lençóis freáticos (água subterrânea, essencial especialmente no semiárido).

Tida como uma das energias produzidas mais limpas, a produção eólica, que utiliza o vento, vem ganhando força no país. Segundo a Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica), são 805 parques, 708 deles no Nordeste. Ao todo são 8.211 torres instaladas somente na região.

Danos cumulativos

A coordenadora do Labocart (Laboratório de Geoprocessamento e Cartografia Social) da UFC (Universidade Federal do Ceará) —que reúne pesquisadores sobre a energia eólica em todo o país—, Adryane Gorayeb, alerta que, com a instalação dessas milhares de torres, é preciso trabalhar agora com o conceito de impactos cumulativos

“Hoje se estuda de forma isolada. É como se só aquele empreendimento fosse causar dano, mas não estamos falando de um empreendimento, mas de vários construídos em épocas e distâncias diferentes”, afirma. Em 2019, alguns desses estudos foram publicados no livro “Impactos socioambientais da implantação dos parques de energia eólica no Brasil”, que apontou para muitos problemas. Segundo Gorayeb, os estudos deixaram claro os impactos, que começam antes da obra, quando há desmatamento, em muitos casos, para construção de estradas para que caminhões pesados passem.

“Muitas vezes eram ambientes fechados, que não tinha nenhum acesso”, explica. Se a construção de estrada vier por calçamento ou asfalto, o impacto afeta o ecossistema. “Raios solares sobre o asfalto acumulam muito mais calor maior que um solo exposto com argila e areia”, diz. Outro fator já clarificado pelas pesquisas é que essas obras causaram impermeabilização do solo, que prejudica o reabastecimento dos aquíferos. Especialmente em áreas secas, esses lençóis freáticos são fundamentais para garantir água à população..

“Nesse processo a água vai sendo rebaixada, ficando cada vez mais no fundo. Na prática, as pessoas que vivem ao redor precisam cavar com poços mais profundos. 

Problemas em dunas e água de Camocim

A pesquisadora Raquel Morais, da UFC, fez uma análise sobre a qualidade das águas subterrâneas em Camocim, no extremo oeste do litoral cearense. No local, o parque eólico ocupou uma área de 1.040 hectares (o equivalente a 10,4 km²), e que 5% desse terreno foi impermeabilizado.

No estudo ela perfurou 15 poços, que depois foram fechados e expostos a mudanças de solo similares às causadas pelos empreendimentos. O resultado obtido foi que os poços estavam com menos pressão e vazão de água. “As interferências são muito relevantes e influenciaram também a recarga das lagoas entre as dunas, muitas delas que eram permanentes antes da instalação do parque”, diz. Ela cita que, após a implementação do empreendimento, esses volumes hídricos secaram, comprometendo a pesca.

Um outro estudo na mesma área feito pela geógrafa Gloria Duran, especialista em sensoriamento remoto. Ela usou imagens antigas e recentes de satélite para comparar os impactos nas dunas de Camocim. “Existiam deslocamentos de até 100 metros a cada dois anos dessas dunas, e depois que foi construído houve uma redução e não supera 60 metros em alguns locais.

A construção dos parques se transformou numa espécie de barreira sobre o campo de dunas”, explica. Ela cita que, à época, o impacto conseguiu ser medido antes porque os parques de Aracati e Camocim foram as primeiras construções na região. “Foi feito de forma muito rápida”, completa.

O professor e pesquisador da UERN (Universidade do Estado do Rio Grande do Norte), Rodrigo Guimarães, também estuda o tema há anos e reforça que a instalação das fundações muda a dinâmica natural das dunas por conta dos aterros e estruturas de suporte às torres. “Além disso, a utilização de água subterrânea em grande quantidade diminuindo o aporte [de água] de ecossistemas, como lagoas costeiras e manguezais”, diz. Sobre o movimento das dunas, Guimarães explica que boa parte delas migram naturalmente e voltam para o mar através dos estuários. “Com as obras, as dunas são escavadas. Eles injetam muito concreto na base para instalar as torres, e as dunas vão sendo fixadas”. completa.

Pássaros também afetados

A bióloga Paula Tavares, que é mestre em geografia pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), também pesquisou o impacto nos pássaros com as torres e cita que há danos encontrados. “Os principais são as colisões, os afugentamentos e o efeito de barreira”, diz. Ela defende que o licenciamento ambiental deve analisar o local, onde o parque vai ser erguido para saber o impacto. Quando já erguido, existem formas também de reduzir impactos, como a pá pintada de preto na turbina —que consegue reduzir em até 70% a morte acidental de pássaros. “Uma outra tecnologia muito interessante é a instalação de radares que detectam a aproximação de bandos de aves e com essa informação as máquinas podem ser paradas, evitando a colisão”, conta.

Entidade afirma que atua para evitar danos

Segundo a Abeeólica, os parques construídos no Brasil respeitam as legislações ambientais e são erguidos sempre tentando reduzir os impactos ambientais para se “conviver de forma compatível com a preservação dos principais recursos ambientais do território”.

Sobre a questão do desmatamento, a entidade diz que a instalação de parques resulta em “baixos índices de supressão vegetal para implantação do empreendimento, sem supressão de grandes poligonais e, portanto, com impactos reduzidos”.

De acordo com a entidade, os empreendimentos são distribuídos “de forma a conviver com um entorno preservado quanto às características de infiltração de água, sendo exceções os casos de uso de pavimentação asfáltica nas estradas associadas”.

Diz ainda que, sempre que possível, os projetos buscam utilizar estradas vicinais já existentes no território. “Esses acessos são revitalizados com sistemas de drenagem e contenção de sedimentos, bem como com recuperação e controle de erosões que ficam como um legado para o território”, afirma.

Quando há necessidade de instalar novos acessos, assegura que as estradas são projetadas “sem o uso de pavimentação asfáltica e considerando as melhores práticas da engenharia”, com sistema de drenagem. Sobre os prejuízos as dunas, a Abeeolica explicou que, no início das atividades há mais de 15 anos, “alguns parques foram instalados em dunas, com as respectivas compensações ambientais”. “Hoje isso já é bastante incomum, visto que os parques tendem a se instalar em áreas fora do litoral”, diz.

Sobre o impacto causado pelos aerogeradores a pássaros, a entidade assegura que, antes de um parque eólico ser construído, há uma uma série de etapas técnicas prévias para se adaptar e atender à legislação ambiental.

“Uma destas etapas inclui, exatamente, estudo de rotas migratórias de aves. A licença apenas é concedida quando há comprovação de que os riscos para impacto de aves são baixos e que podem ser compensados por medidas mitigatórias definidas pelos órgãos ambientais”, afirma, citando que, quando o “impacto reduzido chega, há medidas mitigatórias”.

Fontes: Geoverdade, UOL.