Como grupos estão repovoando a Escócia com Arvores e Crianças

O que faz o esqueleto de uma Arca de Noé no alto de uma colina com vista para um braço de oceano Atlântico, no oeste escocês? “Enquanto os países discutiam a crise do clima, quis lembrar que os mares estão subindo e temos que estar todos no mesmo barco para salvar o planeta”, diz seu construtor, Daniel Blair.

Para erguer o barco, de quase 30 metros de comprimento e 5 de altura, Blair usou madeira que tirou de um outro projeto que concebeu há 25 anos: uma floresta comunitária, cercada de pequenas propriedades em que jovens famílias reconstroem as matas originais e repovoam cidades esvaziadas pelo envelhecimento e o êxodo rural.

A Floresta Comunitária de Kilfinan, uma entre dezenas de iniciativas que aproveitaram uma reforma nas leis locais de posse de terra para mudar a paisagem e a dinâmica socioeconômica da Escócia, um dos países de maior concentração fundiária do mundo.

Uma fração minúscula da população escocesa, 0,025%, detém 67% das áreas rurais.

Tamanha desigualdade foi produzida pela expulsão forçada de camponeses no final do século 18, “quando a elite entendeu que teria mais lucro com ovelhas e cervos que com pessoas”, diz Calum MacLeod, diretor de políticas públicas da Community Land Scotland, que assessora mais de cem entidades de posse comunitária no país.

A expulsão, além de forçar a emigração de escoceses para a Austrália, os Estados Unidos e o Canadá, levou também à destruição das florestas originais — formadas por carvalhos, bétulas, salgueiros e freixos — no lugar das quais surgiram pastagens ou grandes plantações comerciais de pinheiros.

Quando Blair chegou à região de Tighnabruaich, onde a Kilfinan foi instalada, “o que havia era apenas uma enorme mancha escura de coníferas”, conta ele, vestido de gorro, botas, jaqueta de frio e kilt (saiote usado pelos homens escoceses).

A falta de diversidade de espécies e os ciclos das florestas comerciais, em que as árvores são cortadas a cada 30 ou 40 anos, empobreceu o solo e a vida selvagem, afastando mamíferos, répteis, pássaros e insetos.

“O vilarejo também estava morrendo; os jovens o tinham abandonado”, diz Blair, o que o levou a conceber uma “ecovila intencional”, na fronteira da pequena cidade. “Assim, a ecovila se beneficiaria de ter uma escola, um mercado, um pub e um correio, e Tighnabruaich ganharia novos moradores, jovens famílias, crianças.

A oportunidade de mudança veio no final da década passada, quando a legislação passou a incentivar a mudança no uso das terras, dando prioridade de compra a comunidades, e mais garantias a arrendatários, chamados de “crofters”, também para áreas florestais.

A segurança gerada pela reforma legal provocou duas ondas de “crofters”, diz Gordon Gray Stephens, fundador da Native Woods, que assessora a reconstrução de florestas nativas na Kilfinan.

Depois de uma primeira onda de agricultores locais, vieram famílias ou jovens de diversas regiões do país, muitos deles de formação urbana, à procura de um modo de vida alternativo que ajude a combater a crise climática.

Os arrendatários precisam manter uma cobertura florestal, mas podem também formar pomares, praticar agricultura e pecuária integrada à silvicultura, cultivar hortas ou montar estufas de flores e viveiros de mudas.

Em 2010, os moradores da paróquia de Kilfinan compraram uma floresta comercial, ampliada em 2015 com outra área de coníferas adquirida do governo. No total, as terras em nome da comunidade local chegam agora a 561 hectares (o equivalente a quatro parques Ibirapuera).

Na mesma época, em 2010, surgiu a Community Land Scotland para assessorar a criação de propriedades conjuntas. Onze anos depois, as áreas comunitárias ocupam na Escócia mais de 200 mil hectares (5 vezes a baía da Guanabara), onde vivem 25 mil pessoas.

“Quando as comunidades compram as terras nas quais vivem e trabalham, ficam livres para revigorar suas áreas e melhorar as perspectivas das gerações futuras”, argumenta MacLeod.

O inverso também ocorre: o manejo e cuidado por uma comunidade é o principal fator de conservação de florestas, mostra a análise de 3.100 estudos revisados por pares, feita por Neil Dawson, pesquisador da Universidade de East Anglia.

Os resultados, publicados na revista “Ecology and Society”, dão respaldo a uma nova batalha desses grupos de agricultores contra os chamados “latifúndios verdes”, grandes áreas em que companhias instalam florestas para compensar suas emissões de gases de efeito estufa.

O que o trabalho do pesquisador escocês mostra, e os anfitriões escoceses e seus visitantes indígenas defendem, é que comunidades são o principal motor de conservação ambiental, além de promover justiça social.

É esse também o princípio que embasou o anúncio, feito durante a COP, de um fundo de ao menos US$ 1,7 bilhão (quase R$ 10 bilhões)  destinado diretamente a povos que lutam para proteger seus territórios ou demarcá-los.

“As pessoas cuidam quando estão realmente envolvidas”, diz Michaela Blair, mulher de Daniel. “Se você mora na cidade e só vem aqui nos finais de semana, não entende o ecossistema, não sente que a floresta pertence a todos. As pessoas que moram aqui começaram a se voluntariar, porque entendem que a floresta é deles, de seus filhos e netos.”

As florestas compradas pela comunidade de Kilfinan estavam maduras, prontas para serem cortadas, e parte foi derrubada para ajudar a saldar a dívida. No lugar, mudas de espécies nativas foram plantadas.

Nos últimos dez anos, as árvores do local têm alimentado a serraria na qual trabalha Ji Cunningham, holandês que se mudou para o local atraído pela nova proposta.

“Nunca tinha ouvido falar em floresta comunitária até vir aqui, e é muito diferente de trabalhar numa empresa privada, que visa o lucro”, diz ele, enquanto transforma toras em tábuas e mourões.

A madeira é vendida para lojas da região, alimenta uma fábrica de móveis da comunidade e é usada na construção das casas da propriedade. A energia vem de uma pequena hidrelétrica, que aproveita as quedas d’água naturais de um riacho.

Uma agência governamental ajuda a implantar o plano de silvicultura, que, além de garantir a renda da madeira, inclui refazer a flora original, para recuperar a biodiversidade vegetal e animal.

Não basta, para isso, plantar ou criar; também é preciso eliminar espécies invasoras —a pior delas é o rododendro, planta asiática também chamada de “espirradeira” no Brasil.

Além disso, o reflorestamento tem que ser feito numa ordem correta, em camadas, de arbustos e árvores pioneiras, que crescem a pleno sol, até as mais frondosas que brotam na sombra das antecessoras.

Também é preciso controlar a população de cervos, que se expandiu com o desaparecimento dos lobos, seus predadores naturais, e hoje prejudica a regeneração das matas, porque pisoteia ou come as mudas antes que elas possam se desenvolver.

Ao redor da floresta comunitária de Tighnabruaich, já há três “crofts” e outras sete estão em processo de aprovação, diz Michaela, mãe de Angus, 8 anos, enquanto mostra o espaço ao ar livre em que cerca de 40 crianças têm aula uma vez por semana.

Fontes: New York Times, Folha SP, Estadão.