Geoengenharia solar: Solução ou Risco

Em um futuro não muito distante, a Terra enfrenta trágicas consequências de um experimento criado para deter a mudança climática: despejar substâncias químicas no céu para formar uma barreira contra os raios solares que aquecem o planeta. A tentativa fracassa. O mundo então adentra uma realidade pós-apocalíptica. Esse é o enredo de “Expresso do Amanhã”, uma produção de 2013 dirigida pelo sul-coreano Bong Joon-Ho, o cineasta consagrado por “Parasita”.

Nem tudo acima é ficção científica. A ideia colocada no filme como uma possível estratégia contra o aquecimento global realmente existe: é o princípio da geoengenharia solar.

Há um centro de pesquisa na prestigiada Universidade Harvard, nos EUA, dedicado a estudar o conceito. O bilionário Bill Gates é um de seus grandes entusiastas, doando milhões para pesquisas.

 

O que é Geoengenharia Solar?

Geoengenharia solar é o nome dado ao conjunto de tecnologias utilizadas para refletir a luz do sol para longe da Terra, com a finalidade de combater as mudanças climáticas.

Entre as técnicas de geoengenharia solar utilizadas, estão pintar edifícios de branco e enviar espelhos gigantes para o espaço, em órbita ou em uma posição estável entre a Terra e o Sol. A ideia básica é manipular a quantidade de luz solar que atinge a Terra, refletindo parte dela de volta ao espaço. O processo pretende esfriar o planeta apenas o suficiente para neutralizar os efeitos de aquecimento causados pelo aumento dos gases de efeito estufa.

Mas a opção mais frequentemente discutida é injetar aerossóis na estratosfera (camada de ar situada de 10 a 50 quilômetros acima da superfície). Esses aerossóis espalhariam um tanto da luz solar que atinge a Terra, refletindo-a para o espaço.

Já existe uma camada natural de aerossóis de sulfato na estratosfera com enxofre proveniente de emissões vulcânicas e outras fontes naturais. Sua espessura varia de ano para ano, especialmente após grandes erupções de vulcões. A geoengenharia solar tornaria essa camada mais espessa, refletindo mais luz solar, resfriando assim o planeta.

À primeira vista, pode parecer razoável. Por que não podemos simplesmente dissipar um pouco de sol e esfriar um pouco o planeta? Isso não contrabalançaria bem os efeitos do aquecimento global?

Não exatamente.

Refletir os raios solares não resolveria diretamente a causa raiz da crise climática, que é a emissão antrópica de gases do efeito estufa. No entanto, alguns pesquisadores defendem que a geoengenharia solar pode ser usada para diminuir o aumento da temperatura global e alguns de seus impactos associados, como secas severas, calor extremo, enchentes devastadoras e extinção em massa de algumas espécies, pois a temperatura média no mundo vai subir numa faixa entre 2,1°C e 3,5 °C.

Alguns especialistas alertam que a geoengenharia solar pode ganhar força como solução neste momento de desespero, mesmo com a possibilidade de gerar efeitos colaterais irreversíveis na parte ambiental e perigosos na política – a técnica poderia ser usada como uma imprevisível arma de guerra. Outros afirmam que não podem desistir de pesquisar saídas diante da urgência da mudança climática – linha de raciocínio adotada por Bill Gates ao falar de geoengenharia.

Em janeiro deste ano, mais de 60 cientistas de vários países lançaram um abaixo-assinado para que seja simplesmente proibido o desenvolvimento da técnica, estudada apenas em simulações de computador e necessitando ainda de testes de campo. Alertam no documento sobre potenciais resultados desastrosos, pois a geoengenharia solar não resolve completamente o problema do aquecimento global –  ponto admitido também por partidários do conceito

E poderia desviar atenção da obrigação mais importante e que vem sendo ignorada: a de reduzir sensivelmente as emissões do dióxido de carbono (CO2) que retém o calor na atmosfera.

A BBC News Brasil conversou com cinco cientistas do Brasil e dos EUA, entre críticos e defensores, para explicar as implicações da geoengenharia solar.

Como funciona a geoengenharia solar?

Há diferentes técnicas que são classificadas como geoengenharia solar, incluindo algumas com intervenção sobre as águas dos oceanos em vez da atmosfera.

No entanto, o princípio da técnica mais debatida hoje se inspira em grandes erupções vulcânicas e se chama injeção de aerossol na estratosfera.

Em 1991, o monte Pinatubo, nas Filipinas, promoveu a segunda maior irrupção de um vulcão no século 20. Deixou mais de 800 mortos e 10 mil desabrigados, além de um rastro de destruição. As lavas e cinzas expelidas fizeram com que toneladas de dióxido de enxofre colocados na estratosfera atuassem como uma espécie de espelho para os raios solares.

“Quando você tem muitas e muitas toneladas de fuligem e partículas sólidas lá na alta atmosfera, a radiação solar encontra esses aerossóis ao penetrar na atmosfera e ela é refletida de volta para o espaço.

Os cientistas notaram que os efeitos da atividade vulcânica do Pinatubo em 1991 levaram a uma queda de 0,5 °C na temperatura global nos anos seguintes – uma taxa considerada significativa.

“A ideia da geoengenharia solar é injetar aerossóis na estratosfera de forma a inibir esse influxo de energia solar. E com isso você estaria induzindo um resfriamento”, afirma Ambrizzi.

Para tentar reproduzir o fenômeno, a ideia é construir aeronaves especiais para atingir a estratosfera (numa faixa a cerca de 20 a 30 quilômetros de altitude) e despejar compostos químicos, como sulfatos e variações. Objetivo considerado bastante exequível do ponto de vista tecnológico.

Outro fator da geoengenharia solar ser vendida como vantagem é o custo do empreendimento: US$ 10 bilhões anuais, nas estimativas mais altas – um valor baixo se comparado aos prejuízos futuros derivados do aquecimento global, calculados já na casa dos trilhões.

Para Stephen Gardiner, da Universidade do Estado de Washington, a crescente atenção sobre a geoengenharia solar é produto do desespero que está tomando conta daqueles que estão conscientes da catástrofe climática no horizonte.

“Está saindo do controle. É difícil saber lidar com os fracassos persistentes das abordagens convencionais, como os acordos (climáticos) de Kyoto e Paris. Portanto, as pessoas estão começando a se agarrar a qualquer coisa. Mesmo ideias altamente especulativas, inerentemente arriscadas e potencialmente desestabilizadoras geopoliticamente como essa começam a ter atenção”.

Segundo ele, a geoengenharia solar envolveria uma profunda concentração de poder político e necessitaria de instituições globais mais poderosas e mais éticas do que as que temos hoje em dia. “Sem isso, quem manejaria o poder da geoengenharia? Parece inevitável que dessa forma seria uma superpotência, que criaria conflitos com outras grandes potências”.

Ambrizzi, da USP, diz que “você não tem o controle de onde vão os aerossóis injetados na atmosfera. Porque na alta atmosfera há fluxos de ventos, há uma circulação intensa na estratosfera. Sem esse controle, você pode desestabilizar regiões que estão equilibradas”.

“Suponha que o Brasil resolva fazer esse experimento, mas a Argentina, não. As temperaturas médias começam a cair aqui, mas aumentam em território argentino ou diminuem muito mais do que as atuais. O governo argentino não deu consentimento para isso. Imagine, por exemplo, que o país perde toda a sua produção de vinho e resolve processar o Brasil”.

Ele também aponta o alto grau de incerteza existente nos atuais modelos de previsão de tempo e clima, reforçando o caráter de imprevisibilidade da geoengenharia solar no estágio em que se encontra.

Embora possa parecer razoável, cancelar o aquecimento do efeito estufa com a refrigeração por geoengenharia solar não é tão simples assim. As formas como os gases de efeito estufa aquecem o planeta são muito diferentes de como a geoengenharia solar poderia resfriá-lo. Um não cancela diretamente o outro.

Ao efetivamente “aprisionar” parte da radiação infravermelha de saída da Terra, os gases de efeito estufa aquecem o planeta de uma forma particular. Em primeiro lugar, o aumento dos gases de efeito estufa faz com que o planeta se aqueça mais à noite do que durante o dia – um padrão observado em grande parte do mundo. Eles também aquecem o planeta mais nas altas latitudes, especialmente no Hemisfério Norte, do que nas regiões equatoriais. E geralmente causam mais aquecimento nos meses de inverno do que nos de verão.

De acordo com alguns especialistas, injetar aerossóis na estratosfera esfriaria o planeta – mas de uma maneira diferente. Como os aerossóis refletem a radiação solar, eles são mais eficazes durante o dia, durante o verão e na zona equatorial. Em outras palavras: o padrão oposto do aquecimento causado pelos gases de efeito estufa.

Portanto, esse tipo de geoengenharia solar não combateria efetivamente o aquecimento causado pelos gases de efeito estufa. Ela tenderia a esfriar os lugares errados, nas horas erradas, para ser um antídoto perfeito contra o aquecimento de efeito estufa.

Em defesa da pesquisa

David Keith, professor de física aplicada e de políticas públicas na Harvard Kennedy School, é um dos principais nomes citados quando se fala no tópico.

“Minha leitura é que há forte evidência de que a geoengenharia solar poderia reduzir significativamente alguns riscos climáticos na segunda metade deste século”, diz Keith.

“Modelos climáticos mostram consistentemente que uma combinação de corte de emissões e de uma geoengenharia solar uniforme e consistente reduziria mais as temperaturas médias e máximas do que o corte de emissões sozinho”.

Holly Jean Buck, autora do livro “After Geoengineering – Climate Tragedy, Repair and Restoration” (Após a Geoengenharia – Tragédia Climática, Reparação e Restauração, em tradução livre), defende as pesquisas por causa dos riscos que estão sendo oferecidos pela mudança climática.

Ela concorda que é preciso entender quais seriam os impactos da geoengenharia solar sobre o planeta e que são necessários muitos estudos antes de colocar a técnica em prática.

‘Paliativo’

Emilia Wanda Rutkowski, professora da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp, foi uma das signatárias do documento que pede uma moratória no desenvolvimento da geoengenharia solar.

“Tentar achar uma solução sem que se modifique a essência do problema [do aquecimento global] não é uma solução de fato. É um paliativo. E todo paliativo tende a mostrar um problema mais à frente que você não conseguiu perceber na hora da emergência”. Questiona: “Então por que não se começa pelo que se sabe, que é a causa essencial?”

Fontes: BBC News, Ecycle, Climainfo, G1.