Aumentar gastos militares pode comprometer metas climáticas e sociais na Europa, alertam economistas

Líderes europeus estão prestes a ampliar drasticamente os gastos militares, medida que pode prejudicar programas ambientais e sociais já subfinanciados no continente. O alerta foi feito por economistas em análises divulgadas antes da cúpula da Otan, que começou nesta terça-feira (25) em Haia, nos Países Baixos.

Segundo o jornal britânico The Guardian, os 32 países-membros da aliança concordaram em aumentar os investimentos em defesa. A proposta em discussão eleva o atual piso de 2% do PIB para até 5% — sendo 3,5% para armamentos e defesa “pesada”, como tanques e bombas, e 1,5% para segurança ampliada, incluindo ciberataques.

A medida é impulsionada pelos Estados Unidos e pelo novo secretário-geral da Otan, o holandês Mark Rutte, sob o argumento de uma ameaça “significativa e direta” da Rússia. Donald Trump e outras lideranças norte-americanas também têm criticado o que consideram uma dependência excessiva da Europa em relação ao apoio militar dos EUA.

Mas analistas alertam para os riscos dessa escolha. A Fundação Nova Economia (NEF, na sigla em inglês) estimou que, para alcançar os 5% do PIB, apenas os países da União Europeia que fazem parte da Otan teriam de destinar 613 bilhões de euros adicionais por ano — montante bem superior ao déficit anual necessário para cumprir metas ambientais e sociais do bloco, estimado entre 375 bilhões e 526 bilhões de euros.

“O debate sobre finanças públicas na Europa nunca foi sobre o que podemos pagar, mas sobre o que os governos escolhem priorizar”, afirmou Sebastian Mang, diretor de políticas da NEF. “Se somas extraordinárias podem ser mobilizadas para o setor militar, que oferece baixos retornos econômicos e sociais, então a recusa em investir na transição justa e em serviços públicos fortes é uma escolha política, não econômica.”

A análise também aponta que essa política pode alimentar reações populares negativas, ampliar desigualdades e corroer a confiança nas instituições democráticas. “Pedir que os cidadãos apertem os cintos enquanto os orçamentos de defesa e os lucros dos investidores em armas crescem compromete a própria resiliência social da qual a segurança depende”, afirma o relatório.

No Reino Unido, o governo anunciou que aumentará os gastos de defesa para 5% do PIB até 2035. O think tank Common Wealth calculou que só um aumento para 3,5% já custaria 32 bilhões de euros adicionais por ano — valor suficiente para financiar, em um único ano, 620 terawatts-hora de energia eólica terrestre, o equivalente a 88% da demanda elétrica projetada para o país em 2050.

Além do impacto fiscal, o aumento nos gastos militares também terá consequências ambientais diretas. Ainda segundo o jornal, os planos de reforço militar dos membros europeus da Otan (excluindo os EUA) podem elevar as emissões anuais de gases de efeito estufa em até 200 milhões de toneladas.

Ativista reforça alerta sobre desconexão entre guerras e clima

Durante evento preparatório em Bonn, na Alemanha, para a COP30, que acontece em novembro em Belém, a ativista sul-africana Tasneem Essop, diretora da Climate Action Network, reforçou a importância de se discutir o militarismo e seus impactos no clima.

“Não falar de guerras nos debates climáticos é como estar em outro planeta”, disse em entrevista ao Valor. Para Essop, os impactos da guerra sobre o meio ambiente e o financiamento climático são negligenciados, criando uma “hipocrisia moral” por parte dos países desenvolvidos, que cortam fundos climáticos ao mesmo tempo que ampliam orçamentos bélicos.

Fonte: Um Só Planeta.

Foto: Pixabay.