Brasil e Europa: a oportunidade de protagonismo na transição energética

Enquanto a Europa debate como se reindustrializar de forma sustentável e reduzir sua dependência energética, um fato ainda é pouco discutido: o Brasil possui os atributos que o continente precisa para avançar nessa próxima fase: escala, competitividade de custos e uma base renovável sólida. Mas ainda falta visibilidade.

O Brasil é sub-representado nas carteiras dos investidores europeus que buscam sustentabilidade e adaptação climática. Cerca de 90% da nossa eletricidade é gerada por fontes renováveis, aproximadamente o dobro do percentual na União Europeia (45.3%). O país é referência global em energia hidrelétrica, eólica, solar e biomassa, e está expandindo rapidamente sua capacidade. Segundo a IRENA (Agência Internacional para as Energias Renováveis), o Brasil foi o terceiro país que mais instalou energia solar no mundo em 2023, com 13 GW adicionados apenas naquele ano.

O custo nivelado de energia no Brasil também está entre os mais competitivos do mundo. Um estudo do BCG (Boston Consulting Group) mostra que os projetos de eólica e solar no Brasil podem ser de 30% a 50% mais baratos do que na Europa. Mercados emergentes estão, com razão, no centro dos investimentos climáticos. A Agência Internacional de Energia estima que é necessário triplicar a atual taxa anual de gastos em eficiência e eletrificação – para cerca de US$ 1,9 trilhão em 2030 – para dobrar a taxa de melhorias na eficiência energética. É uma grande janela de oportunidades.

Entre os países emergentes, a Índia tem atraído uma parte significativa desse capital. Em 2023, o país alcançou 70 GW de capacidade instalada em energia solar, posicionando-se como um dos maiores mercados globais neste setor, graças a políticas como a National Solar Mission, leilões competitivos e incentivos fiscais que atraem capital privado. Mas, à medida que os ativos ficam mais valorizados, os investidores começam a buscar alternativas. O Brasil segue com avaliações atrativas, abaixo da média histórica. Poderia se dizer que o Brasil está “barato demais” para ser ignorado.

Além da competitividade em renováveis, o Brasil abriga uma nova geração de empresas de tecnologia no setor de Energia que já exportam para a Europa e os Estados Unidos. Essas inovações surgem de um contexto em que confiabilidade de rede e eficiência energética são cruciais. A dependência da matriz hidrelétrica revelou a necessidade urgente de diversificação e armazenamento, e o setor privado está respondendo com soluções reais e exportáveis.

Dificilmente a Europa conseguirá cumprir suas metas climáticas sozinha, sendo necessárias parcerias e iniciativas multilaterais. A transição global exige diversificação das cadeias de suprimento, desenvolvimento de novas tecnologias e criação de sistemas resilientes. O Brasil oferece tudo isso — não apenas como fornecedor de recursos, mas como parceiro de inovação.

Este é o momento para investidores e formuladores de políticas europeus mudarem de perspectiva. O Brasil não é coadjuvante na nova economia verde, é peça-chave.

Fonte: Um Só Planeta.

Foto: Getty Images.